terça-feira, 17 de novembro de 2009

DIABETES



(Este conto foi publicado na Antologia de Contos Fantásticos da CBJE 17° Volume, outubro de 2008)

E quando conseguiu abrir os olhos, ainda sufocado pelo amor das Santinhas de açúcar, Josivaldo pode testemunhar o céu ficando enrubescido ao notar-lhe. Tal qual um garçom cansado de servir, ele agora comera as guloseimas da bandeja sem culpa. Foi buscar seus coraçõezinhos redondos. Seus sonhos mais fofos. As criaturas mais doces que já conheceu... Agora as possui.

Na época que meu irmão escreveu a carta me chamando pra morar com ele no Rio de Janeiro eu tinha dezoito anos, e as coisas não estavam lá muito fáceis na minha terra, no sertão da Bahia. Tudo era difícil, a comida era pouca, a água escasseava... O José, mais velho dos oito, tinha ido antes justamente pra tentar melhorar de vida; e melhorou. Abriu uma lojinha de doces no Bairro de Cascadura, subúrbio do Rio. Quem fazia os quitutes era a mulher dele, Dona Carminha, e a irmã dela, Marilene. O Zé queria que eu trabalhasse com eles, por ser de confiança, ajudando as duas na fabricação dos doces. Ele ficaria mais desafogado pra tomar conta da loja. Minha mãe Zeferina me deu sua benção chorando, mas eu parti foi sorrindo, radiante de felicidade, pronto para ajudar o Zé a enriquecer mais depressa!

Quando desci do ônibus os três já estavam a minha espera. Meu irmão era a mesma coisa de antes, só estava mais bem cuidado e de roupa elegante. O que me chamou atenção mesmo foram as duas mulheres. Dona Carminha me abraçou calorosamente, como se recebesse um filho, e pela primeira vez em toda a minha vida pude sentir um abraço tão aconchegante e amplo. Ela dava pelo menos três de mim em largura e peso, e a sensação de voltar a ser neném me agradou instantaneamente. Sem malícia. A Marilene era a mesma coisa, só um pouco mais nova. Brancas avermelhadas de cabelo ‘chanelzinho cor de mel’; olhos incrivelmente verdes. A primeira coisa que as pessoas devem pensar é: Porque mulheres de faces tão belas, delicadas e meigas, não tentam um regime?! Não pensei. Algumas coisas são como são. São perfeitas assim.

Nós ficávamos na cozinha de casa fazendo os doces, quando acabávamos eu ia entregar a mercadoria pro Zé, que ficava na loja. As duas não eram de falar muito ou pelo menos não pareciam estar ainda muito à vontade. Eu também quase não falava, e tentava não olhar, mas não conseguia... Eram lindos os olhos verdinhos! Os doces só eram deliciosos daquela forma porque nasciam das mãos macias, quentes e delicadas; tão brancas que se somavam ao Chantilly. O cheiro doce. O cheiro do suor delas era doce! O rádio tocava músicas populares alegres, Marilene dançava e trabalhava, vestindo sempre sua valente bermuda de lycra e um top curtinho, assim como sua irmã, mostrando romanticamente os belos corpos fartos. Cada dobrinha tinha vida própria. Reluzia! Não havia doçura maior. Lembrei-me dos abraços na rodoviária... Senti-me tão seguro. Tão protegido para encarar o Mundo novo... Elas bem que podiam me abraçar de vez em quando. Foi maravilhoso ouvir o bater descompassado e pesado daqueles coraçõezinhos pequenos acelerados... Meu irmão é um homem de sorte.

Alguns dias depois, a Marilene me pegou num canto pra conversar, estava com ares de preocupação, pensei logo ter feito besteira em alguma receita quando ela me contou o que acontecia: - O José não anda nada bem... Ele fez uns exames e o médico atestou que ele é diabético. O pior é que o Zé não gosta nem de tomar injeção nem de nada. Disse que vai continuar do jeito que está e entregar nas mãos de Deus. Vê se pode?! - Realmente não podia... Mas fazer o quê? Mãe Zeferina falava que ele sempre foi assim. ‘O homem do ponto final’; e assim foi. Infecção generalizada; fruto de um corte ocasionado por uma lata de salsicha, que nunca veio a cicatrizar.

Estávamos os três velando o corpo roxo e inchado do Zé na Sala de casa. Num caixão digno de presidente! Carminha gastou todas as economias no caixão e nos comes e bebes, queria dar ao homem que a tratou como rainha a melhor despedida possível. Marilene só chorava, recostada ao ombro da irmã. Já estávamos na parte em que todos foram, e só ficaríamos nós ao lado do teimoso durante a madrugada. Fiquei observando meu irmão... Tudo isso por conta do medo de hospital! - Valeu a pena Zé?! Hein?! Agora tu ta aí pra virar adubo, seu cabeça dura! - Perdi o controle de um jeito que mais um pouco chamava o defunto pra briga, foi quando me senti neném. As duas me abraçaram rapidamente, uma de cada lado, aparando minhas lágrimas antes mesmo que caíssem, e eu senti o tocar dos dedos macios em meus lábios, ao passo que Carminha introduzia uma queijadinha em minha boca. Quando terminei de engolir, senti o carinho suave de Marilene em meu rosto e o gosto do brigadeiro que ela me ofereceu. No meio daquele abraço duplo, enfeitiçado pela doçura das irmãs, me abaixei e comecei a lamber os tornozelos de Carminha, depois o de Marilene, e tive a certeza de que eram mais doces que os doces que provei. Não levantei o olhar, apenas estendi os braços o máximo que pude, para aconchegar o maior abraço que pudesse, e tentar caber as duas contra o meu peito magro. Ambas, como num filme pornô de pouquíssimo diálogo, mostraram os maiores planetas rosados que já vi, e amamentaram a criança que eu era ali mesmo; na frente do Zé.

Deitado na enorme cama de aço feito sob encomenda eu contemplo as anjinhas de açúcar... Dois travesseiros me aconchegando, aquecendo; uma coxa me cobrindo de cada lado, e sobre meu ‘peito-mesa’ uma bandeja de doces... Comemos os três, mas peco eu pelo excesso. Pois elas são de açúcar; De açúcar! As minhas santinhas foram erguidas de açúcar e mel, nós é que somos mortais de carne e osso! Apodrecemos pela doçura... Entendo perfeitamente a doença do Zé.

0 comentários:

Postar um comentário

Este blog surgiu após inúmeras recomendações, broncas, cascudos e beliscões de conhecidos. Aqui está, enfim, um espaço próprio para o escritor Allan Pitz publicar suas "Patavinices", seus textos, seus livros, e tudo o mais que o tempo for lhe guiando e desenvolvendo.

Obrigado pelo incentivo de todos.