segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

FIAPINHO



(Publicado na Antologia Contos Fantásticos da CBJE, 12° Vol. Março de 2008)

Ela se insinuava robusta. Envolvia-me em pensamentos sórdidos, picantes, tão obscenos quanto o diálogo das antigas fotonovelas eróticas. Era o mais puro tesão que os animais racionais conseguem sentir, momentos tão intensos que justificam o cio canino. Eles não detêm a incrível capacidade de imaginar sacanagem, precisam dos odores. Para nós, seres humanos, sexo pode ser pura criatividade.

Certa vez, um amigo sugeriu a um candidato a Deputado que, caso fosse eleito, criasse uma lei proibindo o uso de fio dental. Não podia mais ir à praia sem ter uma ereção involuntária! Sentia-se intimidado por algumas bundas, não conseguia superar a tara por fio dental, e já tinha quase 52 anos. Acontece que o menino dentro dele sempre amou aquele “fiapinho”. Ai, aquele fiapinho!

Ela vestia um biquíni branco na moda, linda, tinha carnes, tinha graça, tinha uma pele morena impecavelmente bronzeada pelo sol do Rio de Janeiro. Devia estar uns cinco quilos acima do peso ideal, mas só para os críticos, para os gulosos estava no ponto, pronta para ser amaciada. Poderia estar dez quilos a mais, que não mudaria em nada aquele cenário maravilhoso, ou melhor, mudaria sim. Decerto, teria que requebrar os quadris com mais intensidade e força, só assim poderia livrar-se do micro short que a impedia de cair no mar. Daria um ano do meu tempo na terra para ver em câmera lenta o rebolar daquele monumento. E ela não usava fio dental, meu amigo aprovaria, não teria ereção alguma. Ou teria? Abílio devia procurar um psicanalista isso sim.

Por que misturei uísque e água de coco? Um porre de natureza? Poderia tomar só a água de coco e hidratar o corpo embaixo daquele solão. Ou cerveja mesmo. Aliás, era isso que a morena bebia.
- Uma cerveja, por favor.
Já tínhamos algo em comum, ou quase, pois a marca da minha era mais cara, não por sofisticação, por gosto. Que calor insuportável, por dentro e por fora! Que corpão!

Abílio devia ser um moleque fanático por passistas e desfiles carnavalescos, posso imaginar ele tendo mil ereções involuntárias, uma pra cada componente encorpadinha que atravessasse o alcance de seus olhos com o inexorável fio dental. Eu mesmo me empolguei muitas vezes no carnaval, a melhor fantasia da mulherada era nudez com purpurina, fantasia prática, leve e bem ventilada. Nua, não tem problema, o negócio é o fiapo! O fiapo!
- Abílio você não acha que a questão é Freudiana?
- Não. A questão é o fiapo mesmo.

Nossas cadeiras estavam próximas, dava pra sentir as ondas de energia no ar, era magnetismo puro. Quando, e se a beijasse, de certo levaria um choque leve. Estava ficando elétrico, já não via o mar, nem as outras mulheres, só tinha olhos para ela, e ela era tudo o que os olhos queriam. Teria que tentar alguma aproximação, já a observava malicioso por alguns minutos e nada, ou disfarçava ou não me percebia. Levantei, respirei e segui faceiro, malandro, em passos mais do que lentos e gingados, agora um eletro choque era inevitável. Rápido, fingi cumprimentar alguém ao longe e voltei pra minha mesa barraca, um rapaz negro forte como um touro e alto como um muro a abraçou por trás e lhe beijou a boca. Ela falou no ouvido dele, ambos me olharam e sorriram por alguns instantes; estavam tirando um sarro das minhas pretensões e meu físico de escritor.

Percebi então que havia muitos fiapos ao meu redor. Abílio teria morrido de orgasmo no miocárdio. Fui pra casa pensando nos choques que não provei, mas fiz questão de doutrinar a mente pra não sair machucado: O biquíni era velho e surrado, ela bebia uma cerveja vagabunda e o namoradinho não era lá isso tudo. Ainda por cima aquela moreninha comum não era nenhuma beldade.

- Humpft... Gorda iludida.

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