sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O silêncio dos meninos



(Este conto está sendo publicado em algumas Antologias, mas a verdade é que era o meu patinho feio abandonado. Enviei por enviar, e acabou eleito entre os melhores contos brasileiros do biênio na CBJE. INCRÍVEL! Opinião é mesmo bunda sem cadeira! Escrevi esse conto em 2004, numa noite insone, e ficou esquecido até ser eleito um dos melhores do Brasil por um círculo literário! Espero que gostem...)

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O céu cinzento anunciava mais um fim de tarde chuvoso, as casas rústicas de madeira pareciam buscar moradia por entre as árvores que se enfileiravam em toda a colina. Os pássaros da noite passeavam sorrateiros, antes da hora, e, covardes, estripavam no bico as aves confusas do dia. Em lugares como Monte Khalpur, é difícil abandonar os pensamentos torturantes; o sobrenatural antecipa qualquer contexto realista e reconfortante. Andam juntos pela mesma sombra, os lúcidos e os loucos, a bondade e a escuridão, o sangue e o vinho. E por entre as frestas dos casebres adormecidos de pé, os olhos cansados de ver e não enxergar pedem silêncio... Assim, os meninos calaram... Os insistentes tiveram as bocas costuradas. E já não sabiam os khalpurianos distinguir entre possessão e possuído, nem poderiam apontar heróis reluzentes dentre os vilões, igualmente submersos na neblina caótica.

Ouvíamos as meninas, ouvíamos somente as meninas chorosas. Como podem os desencarnados exigir algo, como se ainda caminhassem pela matéria? E quem se alimenta das energias ruins que produzimos? Quem se nutre pelo medo, ou por objetivo infinito de vingança? Vivos! Então, consideraremos vivo, qualquer fragmento inteligente que se mantenha entre o labirinto da humanidade, exigindo e buscando. Ou somente caminhando entre nós.

Há muitos anos, na parte alta da colina, um homem perdeu seu filho único numa barbárie: um garoto, que, entre os sofrimentos que o santificaram, teve partes de seu corpo mutiladas lentamente, num tipo de ritual que seu pai desnorteado nunca saberia descrever ao certo. Antes de saltar do despenhadeiro, o homem ainda perguntou aos ventos quem fizera aquilo a seu menino, e os ventos ventaram as mesmas dúvidas desiludidas; a queda mórbida foi inevitável, rompendo o lento sentido do ar. Daquele momento em diante, os meninos do lugar começaram a morrer um a um, todos da mesma forma surrealista, sem marcas ou ferimentos... Sem sangue derramado, apenas corpos frios e olhos cristalizados, abertos, como de quem, segundos antes, teve seu cérebro dilacerado pelos verdadeiros e enlouquecedores segredos do Universo. Olhos de cristal. E a morte não poderia ser apresentada às ilusões infantis, de maneira mais aterrorizante e inesperada.

Pouco a pouco, os moradores do lugar foram percebendo que o fenômeno se dava nos dias de chuva, e que os mortos eram meninos falantes e ativos, nunca os imperceptíveis e silenciosos. Fosse lá o que fosse, parecia vir movido pela voz dos meninos, como uma besta que já não se utiliza da visão -talvez por impedimento- e segue as vítimas pelo som. Ninguém duvidava que a alma suicida vagasse em nome de sua eterna vingança; qual a explicação racional para isto? Coincidência? Por que só os meninos? Se no coração irracional o pai sentiu queimar a maior das injustiças, estaria o assassino vivo, na cegueira suicida do vácuo?! Vivo pela busca, enraizado aos meninos, crucificado pelo amor divino que nutria fortalecido, sentenciado a caminhar cego na Terra por não aceitar demandas celestiais; recusando-se a partir sem seu filho para o lado dos que optam pelo fim.


Um forasteiro de nome Clark, fugitivo por crimes banais (roubo de pães, frutas, bebibas) em outras cidades, refugiou-se na colina cinzenta certa vez, mas fugindo apavorado logo depois. Deixou eternizado seu pavor em uma carta enviada por ele às autoridades que o perseguiam: - Prezados senhores da Guarda Real; chamo-me Clark Nabot, e como os senhores bem sabem, sou procurado por roubar pequenas quantidades de comida na luta diária pela sobrevivência. Mas não escrevo para me explicar, ou tentar fugir de minha pena sob lamúrias, já que agora percebo que algumas pessoas - crianças- estão sentenciadas a males muito maiores e absurdamente terríveis. Durante meus dias como fugitivo, acabei parando num lugar triste e assustador. Por mais que seja cristão o pensamento, não há possibilidade de creditar ali a presença de Deus. Vi meninos andando amarrados uns aos outros como cães, alguns têm a boca costurada por tiras de couro cru! Creio tratar-se de macabros rituais satânicos, pois assim que evoquei a salvação do criador em meu pensamento, uma coisa que não me atrevo a detalhar perseguiu-me e tentou tocar minha face durante longo período, até que eu me afastasse definitivamente do lugar, Monte Khalpur. Não sei como sobrevivi a essa situação demoníaca; espero que façam alguma coisa por aquelas criança: nenhum filho de Deus merece passar por aquilo. Salvem aquelas pobres criaturas!

Sem mais,

Clark Nabot

Um grupo de soldados da guarda partiu para Monte Khalpur, no intuito de verificar as denúncias de bruxaria e rituais satânicos. Mas não havia ninguém para dar explicações no lugar. Apenas olhos cristalizados e gélidos. Fez-se o silêncio dos meninos a única resposta; e o despenhadeiro da incompreensão a saída lógica, para quem há muito não respirava.


http://www.camarabrasileira.com/panorama2009conto.htm
Panorama Literário Brasileiro
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