quarta-feira, 21 de abril de 2010

DOIS DIAS DE AVENTURA!




(O médico examina sério alguns exames) - Felisberto, o senhor tem apenas mais dois dias de vida.
- Dois?!
E assim Felisberto deixou o consultório, levando abafado no peito seus últimos dias de vida, suas poucas horas de respirar.

- Helena, vamos à Pedra da Gávea?
- Ihh... Fala logo o que o médico te disse, anda.
- Nada demais, estou ótimo! Vamos ou não?
- Não sei não... O que você quer fazer na Pedra da gávea?
- Ué! Não te parece óbvio?! Quero saltar de Asa Delta!
- De Asa Delta? Felisberto; você é Acrofóbico!
- Que se dane a Acrofobia! Cansei dela... Vai comigo ou não?
- Ai Felisberto... Você não é mais nenhum brotinho, cinquenta e cinco anos já é bagagem... O que esse médico te disse, afinal?
- Pro diabo com esse médico! Ele disse que queria me fazer mudança de sexo, foi isso; e eu quase fiz! Vamos ou não vamos?!
- Não vou a lugar nenhum se não te reconhecer.
- Me reconhecer, Helena?! Em trinta anos ainda não deu pra ser apresentado num todo?! Pro diabo! Então vou pular daquela pedra ordinária sozinho! Depois vou pular de bungee jump! E sei lá mais o quê, o que me der na telha!
- O que esse médico te disse, Felisberto...? Chega de rebeldia, fala logo o que te deixou assim; o que foi?
- Uma bolada! Uma bolada nas bolas me deixou assim! E agora você está martelando as pobrezinhas novamente. Eu só quero dois dias de aventura! Caramba... Eu trabalhei minha vida inteira sentado numa bosta de cadeira, recebendo ordem de tudo que é gentalha detestável, chega! Preciso desses dois dias de aventura! Agente pode até transar em público.
- Em público?!
- Na praia! No cinema, na Asa Delta, no bungee jump! Quero enlouquecer com você nos próximos dois dias! Vem comigo ou não?!
- Bom, eu não sei se quero fazer as coisas dessa for... (toque estridente de celular)
O celular de Felisberto toca. Quando ele atende fica surpreso em receber telefonema do médico com quem se consultara pouco antes, contudo não esboça qualquer reação para análise de Helena. Ouve calado, respondendo com esporádicos "sim, sim". Desliga sem dizer nada; senta na velha poltrona de sempre; retira os sapatos, as meias, e pede à mulher, que assiste curiosa em silêncio, uma fiel latinha de cerveja.

- Cerveja? Você tá doido?! Quem era no telefone?!
- O médico.
- O que ele ainda queria com você?
- Dizer que eu sou mesmo acrofóbico. Pode trazer a cerveja?
-???????????!! (Pensamento: Melhor eu trazer a maldita cerveja antes que ele morda o meu carpete novinho).



(Parte integrante do livro "Confetes no Funeral")

2 comentários:

  1. Allan, parabéns pelo livro e MUITO obrigado pelo apoio, um grande abraço de tods da FANTÁSTICA...

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  2. Parabéns pelo livro Allan...
    Obrigado pelo apoio em nome de todo o pessoal da FANTASTICA...

    Grande abraço

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Este blog surgiu após inúmeras recomendações, broncas, cascudos e beliscões de conhecidos. Aqui está, enfim, um espaço próprio para o escritor Allan Pitz publicar suas "Patavinices", seus textos, seus livros, e tudo o mais que o tempo for lhe guiando e desenvolvendo.

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