
Passa um riacho na frente da casa...
Um casebre de nada,
casebre de teto furado, enfeitado de cacto,
enfeitado de urtigas.
Mas passa um riacho na frente da casa.
A vida corre e sorri ao seu humilde dono,
que agradece e aceita alguns peixes.
Aceita uns goles fartos de água,
aceita os bons dias e as boas noites,
o espelho que o riacho faz da lua.
É claro, às vezes, o homem que vive ali sozinho
sonha com uma casa melhor...
Ele é humano... Sente frio, fome, sente dor, tem os seus desejos...
Mas, quando ele pensa que o mundo de lá
está mandando seu recado iminente,
e deve provar que é grande para toda a gente,
ele se lembra de que o riacho apenas passa,
só, sempre
acenando à porta de sua casa...
E ele ali fica, acompanhando a mágica das águas
que passam, acenam, e trazem mais vida ao seu lugar.
No fim, as águas o fazem perceber:
Que a facilidade da vida é o inverso
de tentar provar que se vive.
(do livro de poemas inéditos "Aceite as Flores Carnívoras de um Neandertal")


















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