sábado, 27 de março de 2010

Abatedouro da Fome




Existem aqueles malfadados dias
Em que o silêncio é capaz de remover montanhas,
E ainda que tentasse a voz por teimosias:
Não se expressa, não se diz, e não se explica.

Existem aquelas malfadadas horas,
Lentas horas, a ver um *Kafka por entre as palhas,
A ver um céu de etiquetas e roupas caras
Ou navegar
Por mares industriais.

Residem aquelas malfadadas decisões
Em minutos roubados que nos levam clarões,
Deixando o breu, o escuro, o intruso,
Tomar a rédea de nossas fracas ações.

Existem aqueles malfadados dias
Em que se busca, se almeja, e se quer a morte,
Quando no fundo só se quer mudar a própria sorte,
Quando no raso:
Só queríamos ver os campos; e o Forte.
...

Existem aqueles malfadados dias
Em que o nada se expressa através do nada,
Em que o nada se diz por entre a palha,
E o nada se explica:
Nada.
Ao som valioso do nada.



* Franz Kafka – Autor de “Um Artista da Fome”
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segunda-feira, 15 de março de 2010

Controle remoto




Há em mim um botão de automático
Que me permite ignorar o problema
De olhar a desesperança e não ter pena
De acreditar que o mundo não irá desabar

Há em mim um botão burocrático
Que apertado resolve papéis
E me leva sorrindo de mesa em mesa
Por labirintos que nem lembro mais!

Há em mim um botão sanguinário
Que se alimenta cruel do noticiário
Tal vampiro escondido em vigário
Esperando a meia noite chegar.

Há em mim uma mosca perplexa
Que de tantos doces, os detesta
E no fim repousada
Na testa
Faz questão de um último:
BZZZZZZZ

Há em nós um controle remoto
Adaptado
Com muitos botões,
E dotado
De incríveis funções,
Para o homem livrar-se
Em automático
Das próprias emoções.
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quarta-feira, 10 de março de 2010

Aquaplanagem




Escuto tão longe que nem sei se escuto
Relaxo acordado que nem sei se acordo
Abduzo em cigarro
Essa nave do vício
Meu carro em deslizo
De Aquaplanagem.

Se pego na arma nem sei como atiro
Se eu estou como alvo?
Nem sei se me rendo...
E se eu sou do problema?
Nem sei se resolvo.
E se eu fujo vazio?
Ataca-me: O dilema.

Mas se for do pecado, eu vou lá,
E absolvo;
No meio eu resolvo
As questões
Do inventário.
De soslaio eu reajo
Ao carmim
Que me tenta,
E a sede atormenta
O meu “eu”
Embrionário.

Ao lendário me fecho
Em prosa
E compromisso!
Em poemas me solto
Desmonto
Ao que for montado.
Pois me sopram coisas,
Muitas,
Nesse meu ouvido...
(Sofrido)

Pois me sopram coisas:
De onde tudo é vago.




(Em breve postarei mais prosas, ando abduzido pelos poemas. Novidades virão logo! Agradeço de coração os seguidores do blog pelo carinho e a gentileza dos comentários, isso triplica as forças no caminhar. Muito obrigado, e um abraço paquidérmico do Allan Pitz.)
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Este blog surgiu após inúmeras recomendações, broncas, cascudos e beliscões de conhecidos. Aqui está, enfim, um espaço próprio para o escritor Allan Pitz publicar suas "Patavinices", seus textos, seus livros, e tudo o mais que o tempo for lhe guiando e desenvolvendo.

Obrigado pelo incentivo de todos.