sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O Paquidermes Culturais entrevista: Kyanja Lee


Mais uma entrevista paquidérmica sensacional! E mantendo a saga recente dos grandes convidados de peso, quem chega para abrilhantar o blog é a parecerista e revisora Kyanja Lee, numa entrevista onde adentramos sem medo o temido mercado editorial, e a importância de seu trabalho para todos os escritores.

Pergunta à parte: Quem é Kyanja Lee?

Sou uma pessoa sensível, a quem toca qualquer tipo de manifestação artística e estética. E adoro a manifestação de inteligência de que o ser humano é capaz por meio da criação literária. E como parecerista, revisora e preparadora de originais, tenho me especializado em ficar nos bastidores da criação literária, auxiliando novos autores a melhorarem suas obras.

1- Kyanja, qual o papel de um revisor profissional no trabalho de um escritor? E por que originais que não passam por revisores, dificilmente são aceitos nas editoras?

R.: As editoras querem ter certeza de que o autor é profissional (e não amador) o suficiente para ter se cercado dos cuidados de estar passando para o seu crivo um texto bem escrito, bem estruturado e sem erros grosseiros (seja de construção, sintaxe, redundâncias, clareza). Imagine se, dentre tantas centenas de originais que recebem por mês, as editoras vão perder tempo em analisar um texto mal revisado?

2- Visto pela sua ótica: Qual o primeiro ingrediente, e os demais pontos cruciais para se escrever um bom livro?

R.: Acredito que seja fundamental se ter uma boa história, que gere interesse no leitor e, mais do que isso, com um enfoque diferente, uma maneira original de transmitir uma coisa aparentemente trivial em algo inusitado. E tudo isso, embalado numa linguagem agradável, direta, acessível e com uma estrutura bem amarrada (onde se percebam gradações narrativas, da menor para maior intensidade em termos de carga dramática ou de revelações ao leitor).

3- Já mandou (teve vontade) algum escritor estudar um pouco mais antes de escrever, ou abandonou algum texto pela metade?

R.: Sim, certamente já me deparei com autores que têm a pretensão de escrever, mas dominam pouco a linguagem, o que faz com que a leitura de seu texto se torne algo bastante penoso. Mas fui até o final e até apontei isso a ele, indicando a quanto por cento eu achava que estava de uma boa narrativa.

4- “Os estrangeiros escrevem muito bem”: esta é a frase. “Então, copiaremos”: Esta foi a conclusão. Em qual parte desse raciocínio o povo pode ter perdido inconscientemente sua identidade literária, e saiu escrevendo, por exemplo, Lucy Marie ao invés de Maria Lúcia (dando crédito à localização da história, evidente)? Não estariam alguns autores, inevitável e paradoxalmente, confundindo a boa estética a ser seguida (quando boa) com o conteúdo nacional estrangeiro que não nos pertence? Fale um pouco sobre isso.

R.: Você levantou uma questão bastante pertinente: de fato, há autores que acreditam que ao, simplesmente, transportarem sua história para cenários internacionais e utilizarem nomes estrangeiros, já terão garantido metade do sucesso de seus livros, o que é ledo engano. Não há como não se perceber artificialismo nesse recurso, se não houver uma razão maior para o uso de tais cenários ou nomes internacionais. E nada pode soar mais falso do que ambientar uma cena na Londres atual ou dos anos 70 se o autor não a conhecer pessoalmente ou – na menos pior das hipóteses – não fizer uma boa pesquisa do lugar.

5- O que mais lhe agrada e mais lhe aborrece na profissão de parecerista e revisora?

R.: Fico muito feliz quando realizo um trabalho em que consigo, de fato, ajudar o autor a enxergar outras possibilidades de melhorias em sua obra e as aceita. É uma troca, afinal, desde que se esteja aberto para parcerias. E, muitas vezes, a amizade com o autor perdura para além daquele trabalho, pois acredito que o envolvimento em seu processo criativo possibilita uma grande intimidade. O que mais me aborrece é quando o autor não está aberto a compartilhar, se mostrando fechado para críticas. Ou quando está apenas atrás do profissional mais “barato” (sem levar em conta que há revisores que simplesmente revisam, ou seja, se atêm a questões gramaticais e de sintaxe, sem se preocuparem com a intenção literária do autor).

6- “Um trabalho invisível que se percebe”, li essa frase no seu site, achei ótima, mas fiquei pensando: Até que ponto um autor (bem errôneo) pode ser radical e não querer que mexam profundamente nos seus escritos ruins? Já passou por algo semelhante?

R.: Sim, pois muitas vezes sou solicitada apenas a fazer a leitura crítica e não o restante (revisão ou preparação – essa última consiste em uma revisão mais aprofundada, com mudanças mais estruturais). Ou seja, percebo claramente que, por mais que aponte quais as falhas estruturais em seu texto, dificilmente o autor conseguirá desembaraçar seus nós sozinho, sem ajuda.

7- Sem dúvida, você tem mais experiência para falar sobre os livros nacionais de agora do que o Ministro da Cultura; está sempre lendo livros que, talvez, nem existam nas livrarias, ou ainda não existem. Está, digamos, mergulhada no cenário atual. Diante disso tudo eu te pergunto: O que falta para os escritores de agora? Por que tanta dificuldade?

R.: Acredito que falta um pouco de originalidade aos novos autores, no sentido de que muitos querem simplesmente copiar modelos consagrados. Ou seja, vampiros estão fazendo sucesso? “Ah, então vou escrever sobre vampiros”. Meninos bruxos estão fazendo sucesso? “Ah, então vou criar o meu personagem bruxo”. Independentemente do que for escrever, o autor precisa apresentar sob uma nova ótica. E se assegurar de criar um mundo fictício tão real e verossímil − assim como personagens idem −, que o leitor se sinta conduzido a ele.

8- Não há dúvidas de que um bom revisor/parecerista deve ser duas vezes escritor (emoção/técnica) o tempo todo. Em alguns casos, como no meu livro “A Morte do Cozinheiro”, o escritor entrega-se apenas à emoção. Tanto que a obra flui de forma lírica, o leitor a percebe assim (emoção), mesmo que enraizada de suspense e tragicomédia... Um profissional contratado com menos entendimento e perícia poderia, involuntariamente, desmontar uma obra mais artística, lírica, por não entender plenamente a composição proposta?

R.: Acredito que um parecerista (entendendo como aquele que dá pareceres, ao redigir um relatório de leitura crítica) poderia ser cruel ou não entender o contexto ou intenção da obra, mas o máximo que causaria de dano ao autor seria frustração, ao emitir um parecer desagradável .
Acredito que com um revisor mais mecanicista não haveria maiores problemas, pois sua função não seria a de fazer grandes mudanças no original do autor: no máximo se ateria à pontuação, sintaxe, ortografia.
Já o preparador − cuja função é propor alterações estruturais maiores ou de linguagem − poderia fazer alterações que desagradassem ao autor, ao propor um novo caminho ou abordagem.


9- Papo bem ligeiro em cinco tempos:

Um livro de cabeceira: Meu livro de orações (“Orações para uma Vida Feliz”), com o qual peço proteção, sabedoria e outras coisas mais (risos).
Uma música inesquecível: Puxa, difícil, hein? Talvez “Always on My Mind” ou “Suspicius Mind”, de Elvis Presley (adoro música romântica e Elvis, bem ele é ele, né?)
Um filme: “E o Vento Levou”
Um sonho: Viajar muito pelo mundo afora e dominar mais umas duas línguas
Um autor ícone: Érico Veríssimo

10- Agradeço por ter aceitado o meu convite. Deixo esse espaço livre para você:
R.:Gostaria de me colocar à disposição de qualquer novo autor. Visitem o meu site: www.kyanjalee.com.br e me escrevam. Ficarei feliz em poder ser útil e clarificar o que precisarem para desembaraçar seus originais e torná-los mais profissionais e atraentes para o mercado editorial. Ah, e antecipando: agora em outubro deve sair o meu e-book intitulado “Conversando com James McSill”, onde por meio de uma trama romanceada, mas verídica, conto de minha rica troca de experiências com um coach literário com visão internacional. Confiram, que vale a pena!

4 comentários:

  1. Muito esclarecedora.
    Todo novo autor deveria ler esta entrevista e pelo menos pensar o que disse Kyanja.
    Um abraço!
    :D

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  2. A Kyanja é sensacional! Vale muito conhecer o trabalho dela.

    Agradeço os comentários!
    Sigo por aqui.

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Este blog surgiu após inúmeras recomendações, broncas, cascudos e beliscões de conhecidos. Aqui está, enfim, um espaço próprio para o escritor Allan Pitz publicar suas "Patavinices", seus textos, seus livros, e tudo o mais que o tempo for lhe guiando e desenvolvendo.

Obrigado pelo incentivo de todos.