segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Cegueira da sobrevivência


No primeiro dia não vimos nada.
O disparo fatal no Arquiduque
As mentiras de cada colarinho
As canções que previram furo
As orações que previram rombo
O último assombro
O feno
Em pratos, tantos,
Desacostumados ao nobre capim.

No primeiro dia não vimos nada.
As migalhas em bocas conformadas
Os pássaros pedindo gaiolas de sobrevivência
Os Cardeais em sua santa indecência
Os Pastores trocando ovelhas por pessoas
Os riachos secos
Os becos
Não vimos o mangue seco
Apodrecendo aos poucos
Em cada um de nós.

No primeiro dia não vimos nada.
Não vimos o invasor ditar as regras
E molestar o seio de nossas famílias
E arrastar as primaveras, os doces dias,
Para fingir em falsas telas diabólicas
A vida vulgar que o meu filho morto
Não teria!

No primeiro dia não vimos nada.
Não vimos a fome
Não vimos a sede
Não vimos a morte
Não vimos a desunião
Não vimos a desilusão
Não enxergamos a injustiça
Nem as fantasias
As contas
Os abatedouros
O sangue
A utopia!
...
No segundo dia nós enxergamos tudo.
Sim, no segundo dia.
E seguimos exatamente como no primeiro.


(Parte do livro de poemas Por Culpa do Sol)

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Este blog surgiu após inúmeras recomendações, broncas, cascudos e beliscões de conhecidos. Aqui está, enfim, um espaço próprio para o escritor Allan Pitz publicar suas "Patavinices", seus textos, seus livros, e tudo o mais que o tempo for lhe guiando e desenvolvendo.

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