segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Um Dia Bárbaro em Cinco Partes Desiguais


Um Dia Bárbaro em Cinco Partes Desiguais
Crônica de Allan Pitz

1
Hoje resolvi dar uma volta, uma dessas caminhadas banais que necessitamos sem maiores porquês. Simplesmente me levantei e saí. O ar de casa já não era o bastante. Nada parece ser o suficiente nessas horas. É necessário caminhar e pensar. Lá fui eu com seis pratas no bolso. Caminhando e pensando.


2
Ando um bom trecho, paro no ponto de ônibus, espero um deles chegar. Vou em pé dentro do ônibus lotado (sempre estão cheios) até o shopping mais próximo. Imagino estar em Bangladesh durante o caminho.

Um cara fala pro outro:

- Se o Flamengo não for campeão, mudo meu nome pra Valeska Popozuda!! A “paulistada” não tem chance esse ano!

Pensei que deveriam estar dizendo exatamente o contrário disso em um ônibus paulistano, igualmente lotado e sufocante.


3
Chegando ao Shopping - é melhor localizar logo o ar-condicionado -, eu faturo uma cerveja barata (o que dá pra pagar), e como um pequeno integrado social burguês vou me deliciar com vitrines. Deliciar-me...? Porra nenhuma: reparo, geralmente, é nas vendedoras (o Brasil não cansa de fabricar mulheres maravilhosas pra todos os gostos), ou nas roupas que penso em comprar quando puder (as minhas já estão bem surradas. Fazer o quê...?)


4
Opa! Vinte minutos e já preciso sair do shopping. Preciso fumar um cigarro e só pode ser lá fora (está certo, o câncer será meu e de mais ninguém, concordo. Revezo 20 minutos dentro e 5 fora). Acabo, volto; acabo, volto; acabo, volto; e me dirijo até a livraria principal do shopping (não resisto); é sempre bom dar uma conferida nos lançamentos mais destacados, os queridões do momento. Gringo, gringo, gringo, opa: aquele é brazuca! É, mas sei lá... Tem uma pinta meio paraguaia. O outro também? Não... Sei de nada... Sei bem pouco. Se eu fosse bom de verdade estaria ali também, como os “paraguaios” que estão ganhando dinheiro. Não quero entrar nessa de ser o sofredor incompreendido da pátria (“Oh, coitado, ele é um gênio comendo farofa de burro”), um gênio sem lâmpada e sem Aladim; a vida já anda me batendo demais sem essa autopiedade escrota pra ferrar de vez com tudo.

Se não estou ali, se não estou nas grandes livrarias, se não estou queridão de nada, não devo ser bom o bastante para tal. O que é bom pra mim não é pro outro; é assim, é uma bosta, é o cretino do Judas e as moedinhas de sangue no bolso maldito; ninguém agradará cem por cento a ninguém! É uma droga não saber o toque de Midas* da vida. Senão, a literatura do meu país seria injusta, e eu não tô a fim de entrar nessa lenga-lenga de sempre... Digamos que eu queira morrer patriota, agora. Tá vendo aqueles caras ali: leia eles primeiro. Meta o olhinho neles. Porque eles são os bons. Eles são bons pra cacete!!! O meu país diz que você deve ler eles, e não eu.

* Toque de Midas é um termo derivado do grego, significa dizer que aquilo que for tocado por você se transformará em ouro.


5
É, vou embora... O passeio pelas grandes livrarias consegue me deprimir se eu não estiver pessoalmente em um bom dia para apanhar. Bate uma ressaca sem bebida, a cabeça pesa o triplo (uma bigorna), é como desfilar num campo de batalha sozinho; não há nenhuma farda da mesma cor, nem aliados, nem capitão (saiu para almoçar e jamais voltou). Basta que alguém mire na minha cabeça frágil e dispare... É um campo de batalha onde não encontro minhas explosões. Posso atirar que ninguém se fere. Posso gritar que ninguém me ouve. Posso dançar peladão, posso morrer apedrejado que...

- Matheus Fritz?!

Viro-me ao som daquela voz. Que loirinha espetacular! Seus olhos azuis radiavam alegria; a calça jeans apertava as pernas compridas, bonitonas; o corpo na medida certa; os cabelos longos, ondulados e dourados; vestia uma blusa curtinha de flores azuis. Tudo que eu pude dizer (esboçar) com os lábios semicerrados e cara de tonto foi:
- Olá...

- Você é autor do livro As Pulgas Fugitivas, não é? – perguntou-me a Cachinhos Dourados.

- Sou...

- Ganhei seu livro no meu aniversário de 17 anos. Meu tio me deu.

- Seu tio te odeia muito...?

- Que nada! Eu adorei o livro! Ele tem um pouco de cada coisa: é bem legal. Deveria estar aqui na loja, entre os livros de bolso. O Matador de Gourmets também.

- Você também leu esse?! Estou com medo de você...

(Risos elétricos antes da fala simpática):

− É! Estava saindo por cinco reais numa feirinha de livros usados. Fui curiosa pelo que li no outro e comprei esse. Está de parabéns, hein!!

- Poxa, o meu dia melhorou muito! Qual o seu nome?

- Bárbara.

- Sem dúvida! Olhe, Bárbara, esses livros que você leu foram escritos em 2007 e 2008... Tenho um baú de textos melhores, mais recentes. Tem coisa nova pra sair. Que Deus me ajude a publicar!

- Eu li sobre as novidades numa entrevista tua! Vai dar tudo certo!

- Entrevista minha?

- Exato, o livro é Artéria Rodoviária – Um caminho para Monet, não é ?

- Isso...

- Então, estou esperando a sua próxima maluquice chegar. Não pare com as maluquices, por favor!

- Escute bem, Bárbara: como leitora você me achou maluco, lendo os meus livros?

- Sim... Mas não o culpo. Gostei do que li. Eu e meu tio gostamos de malucos na literatura.

- Eu também...

- Então é isso, Matheus, foi um prazer falar com você! Boa sorte com os livros!

- Com certeza o prazer foi todo meu, garota! Deixe o seu e-mail comigo, vou te mandar um livro de presente, quando sair algum novo.

Trocamos e-mails, demos os tradicionais beijinhos no rosto. Bárbara se foi na multidão, levando sua imensa trilogia de aventura fantástica recém-comprada. Belíssima criatura.

Humm... Então as coisas não estão realmente de mal a pior... Não mesmo. A caminhada de hoje me mostrou que a vida se apresenta de muitas formas ruins, mas também pode ser bárbara de vez em quando (que clichezão)! Talvez eu devesse escrever sobre isso - pensei. Antes, porém, voltei para a porta da livraria mais uma vez. Olhei bem para aquela vitrine, como quem chama alguém para uma briga particular, olhos nos olhos, papo nosso. Levantei a palma e fiz o gesto típico de “te pego depois, deixa estar, malandro”, meio que de banda.

Acendi um cigarro amassado na saída e voltei todo o percurso a pé, pensando nas bárbaras criaturas e nas criaturas bárbaras que encontramos pela vida, dividindo minha reflexão em algumas partes bem desiguais − como um reflexo de quase tudo neste mundo claramente desigual.


2 comentários:

  1. AH, Allan, adorei!!!! Às vezes me sinto exatamente assim! E os trocadilhos de nomes! Ninguém acerta o nome do meu livro. Às vezes me dá uma vontade louca de mudar para: Um Grande Amor, ou Amor e Guerra, ou Entre Guerras e Paz (ou soaria muito similar com Tolstoi?). Uma blogueira disse que pensou que o nome do meu livro era um erro de ortografia na capa! Mas não desistamos! O seu talento "maluco" ainda vai lhe render inúmeras "vitrines" na vida!!!!

    Um grande abraço, Ana

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  2. Obrigado, Ana!! Rsrs! Esse 'loser' (o Matheus) é uma válvula de escape, de vez em quando ele surge em algum textinho. Entendo bem os caras (os gênios da escrita) que recriam alter egos elevados em sua enésima potência. Você flutua como um balão enquanto escreve...

    Abração!!

    Ps: Eu adoro o nome do seu livro, Apátrida. Mas gosto não se discute... Pois é.

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Este blog surgiu após inúmeras recomendações, broncas, cascudos e beliscões de conhecidos. Aqui está, enfim, um espaço próprio para o escritor Allan Pitz publicar suas "Patavinices", seus textos, seus livros, e tudo o mais que o tempo for lhe guiando e desenvolvendo.

Obrigado pelo incentivo de todos.