terça-feira, 24 de novembro de 2009

As aparências tupiniquins



Começarei o texto revelando minha intenção: O Brasil vive de certa aparência. Mas não quero dizer com isso que nosso amado país é a latrina do mundo, pelo contrário, o Brasil é um continente, ainda vai longe! O que me preocupa é a velocidade no caminhar... O tempo de espera... E quantos sobreviverão à dolorosa travessia.

Aparências... Vamos dar forma a essa questão: Futebol, paixão nacional, quanto tempo um garoto bom de bola se mantém num clube brasileiro? Pouco, é melhor que não faça lá grandes jogadas, gols então nem pensar, ou logo uma mala recheada de Euros levará o garoto. E a luz? Algumas cidades sofrem com quedas de luz diariamente, bairros apagados, cortes sem aviso... Mas no apagar das grandes metrópoles, no apagar de todos os bairros, chiques ou pobres, enxergamos rapidamente o problema. E o corte irregular de madeira? O coração da selva é devorado por máquinas, os lotes de terras preservadas são vendidos indiscriminadamente! E os índios? Bom, além de serem massacrados desde as Caravelas, vão agora ficando mais espertos e empreiteiros. E o carro blindado? O tal do “caveirão” carioca? Se você visse na televisão, que a cidade sede dos jogos olímpicos é cercada por núcleos marginais fortemente armados, onde a própria polícia só consegue entrar com uso de blindados militares, esquemas de guerra, e que o número de ocorrências policiais é vasto e alarmante; você ficaria tentado em ir aos jogos de Sarajevo? Os jogos de Gaza? As olimpíadas de Cabul?!
E os programas sociais? Dinheiro imediato pra quem precisa comer; complementar a renda... Concordo! Mas e os grandes núcleos governamentais, os mega núcleos (somos um país continente) para ensinar e profissionalizar gratuitamente todos os cidadãos? E os presídios rurais para plantar a comida dos restaurantes populares, das merendas públicas? Onde está o projeto gigante que um país gigante merece?! Tudo é aparente e imediatista. Lembramos, e esquecemos.

Os escritores precisam pagar para vender os livros iniciais (expostos a enganadores), os atores aspirantes precisam investir em registro e material de trabalho (book fotográfico, DVD com cena gravada...), as profissões mais “nobres” vão de um pólo ao outro: De graça em algumas ONGs em favelas... Caríssimas e fechadas para as classes intermediárias. Há enraizada uma república dos amiguinhos, dos conhecidinhos, do nome forte na carteira, isso é fruto de um joguinho de aparências. Assim como o hospital de duzentas salas com apenas vinte em funcionamento, um posto de saúde que abre às dez da manhã e fechas às três da tarde, um sistema nacional de TV aberta que permite cinco programas religiosos em cinco canais diferentes, simultaneamente! Será que é uma ajudinha não declarada em favor das TVs a cabo? E a cota universitária? Não entendo essa cota, temos paupérrimos e favelados de todas as cores! Façam uma cota única para o pobre! O nosso preconceito maior é o social!

Agora a onda é apartheid moderna, era medieval 2000, queimar bruxas de mini saia, apontar o dedo sujo ao pecador, separar os coloridos... Tanta energia jogada fora, os políticos (preocupadíssimos com a opinião pública) agradecem. Tenho um medo danado dessa nova geração apartheid anti mini saia. Tanto medo que paro por aqui com minhas observações. Preciso manter esta minha aparência olímpica de carioca satisfeito.

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Este blog surgiu após inúmeras recomendações, broncas, cascudos e beliscões de conhecidos. Aqui está, enfim, um espaço próprio para o escritor Allan Pitz publicar suas "Patavinices", seus textos, seus livros, e tudo o mais que o tempo for lhe guiando e desenvolvendo.

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