domingo, 22 de novembro de 2009

Necessidade de Rabiscos



(Conto publicado na Antologia de Contos Fantásticos da CBJE 15° Vol.)


Carta anônima encontrada por um sacoleiro andarilho na ponte da amizade, fronteira com o Paraguai:

‘Nunca fui nenhum tipo de herói, também não fiz parte de organização ou movimento algum... As coisas foram acontecendo naturalmente, seguindo uma espécie de fluxo criativo que habitava silenciosamente meu corpo, e muitos outros. Passo a passo, dia a dia, senti uma necessidade doida de escrever, como de beber água, tomar banho, comer, vestir, calçar. É tão orgânico quanto as minhas funcionalidades habituais, escrever é tudo que gosto de fazer, que amo fazer! Mas eu não sou igual aos outros, me recuso a escrever no papel. Já escrevi muito em meus cadernos e fichários, na escola, na faculdade, no trabalho, minha necessidade é outra; Os Rabiscos! Meus incompreendidos e santificados rabiscos! Quem foi o Asno que declarou que os desenhos e dizeres em banheiros públicos não são obras de arte? Se cada letra torta, cada hieróglifo moderno e frase filosófica que de minhas mãos beijaram o concreto e a madeira, levaram um pouco do meu coração!
Cada muro, cada porta, cada pilastra. Sempre tive necessidade de rabiscos, e isso fez de mim um artista jamais reconhecido.

Mesmo que eu quisesse, não poderia nem conseguiria narrar todas as minhas obras de arte, são muitas, em lugares que nem lembro ao certo, mas estão lá, pra quem quiser ver, é só procurar. Num banheiro de rodoviária no interior de São Paulo comecei a divulgação do meu primeiro rabisco de sucesso: “É aqui que todo covarde faz força e todo valente se borra”. Logo os fãs aderiam e a frase virou febre. Depois foi a musical: “Não cague cantando que a merda sai dançando”. Quantos plágios Brasil a fora, artistas reprimidos em busca do gozo ilegal. Logo os banheiros já estavam tomados pelas obras: “Taninha sexo quente, assando a lingüiça da gente!”, “Se eu sou ladrão a culpa é do tio Valmir”, “Quem não tem fé tá ferrado”, “Mulher honesta só minha mãe”. Eram frases aleatórias, desenhos diversos, mas comecei a encontrar nomes com telefones e indicações; “Ligue que te arraso de prazer”, “Ta afim de uma transa agora?” Começou a perder o sentido... Vinganças, chacotas, anúncios, já não era arte. Abandonei os banheiros.

Foi durante uma viagem à Maceió que encontrei minha nova tela de trabalho: Os muros de um prostíbulo barato! Era fascinante, ver o balé ofegante das celulites e perebas calientes na mesma sacada. Minhas Monalisas de cinco e noventa e nove, tão caras quanto à garrafa de vinho que me acompanhava! Musas inspiradoras que mereceram após farta ceia carnal, uma de minhas frases mais celebres: “Não existe mulher feia, você que bebeu pouco”. Os muros eram meus agora. Todos eles.

Hoje sou um setentão realizado, imortalizado e lembrado por todo o Brasil. Em minha última investida, alcei ares de Profeta Gentileza, ao escrever por todas as paredes vazias da Cidade do Rio de Janeiro: “Só Jesus expulsa os Demônios das pessoas” Mas cansei disso. Sinto-me esgotado demais para continuar viajando por aí sem rumo, vou me estabelecer em algum outro País Sul-Americano, onde pretendo saciar minhas necessidades de Rabiscos escrevendo vez ou outra, recadinhos muy amáveis pelos muros do MERCOSUL. Dois fazem enorme sucesso: “Yankees go Home” e “ALCA ALCArajo”.

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