sábado, 28 de novembro de 2009

O CARTÃO "DI GRÁTIS"




(Conto publicado na Antologia de Contos Fantásticos da CBJE 18°Vol.)


Escrevo esta história para impedir que suma no tempo espaço.

Deputado Ananias Fiofônio era a maior esperança do povo de Ramalhão do Saco Torto, cidadezinha situada entre Recanto do Lagarto Magro e a ‘PQP’ da Serra Escaldante. Agora o lugar esquecido nos mapas teria voz no Planalto Central. As tão sonhadas melhorias chegariam lá também. Ramalhão é evolução! Fiofônio é a solução!
O problema do ‘Deputado-Coronel’ Ananias foi o cartão ‘Di grátis’. Mas... Acredito que não foi por mal...

- Jupiraçú, meu filho, veja você como são os mimos do ‘púder’... Mês passado eu ganhei esse cartão aqui, comprei uma penca de troço, e até agora o banco do governo não me mandou a conta pra pagar...

O assessor arregalou os olhos

- Deve estar atrasada deputado...
- Que nada! Também pensei que estivesse... Mas eu to achando é que esse cartão não tem conta nenhuma, é ‘Di grátis!
- ‘Di grátis’?!
- É, ué! Deve ser por merecimento...! Afinal de contas nós somos os representantes do povo; é como se o governo estivesse agradando ao povo diretamente.
- Então o senhor pode comprar o que quiser?!!
- É claro Jupiraçú! O púder é o púder! Eles me dão quanto dinheiro eu quiser, e eu ajudo o povo a minha maneira. Deve ser assim que funciona...

O Deputado coloca o cartão na palma da mão, e ambos ficam a fitá-lo por minutos de silêncio. Ananias segura o queixo e suspira poderoso; Jupiraçú coça a nuca...

-... Mas Deputado... E por que é que ninguém fala desse cartão ‘Di grátis’?!
- Por que ninguém quer fazer alarde, homem!!
Mais uns minutos de silêncio e contemplação... Até o assessor prosseguir cautelosamente curioso.

- E o senhor, ‘echelência’...? Já sabe o que vai fazer com ele...?
- Olhe Jupiraçú, meu filho... Muitas coisas... Mas primeiro; vou comprar uma Hidromassagem francesa que eu vi na CARAS!

E do cartão corporativo do Deputado Federal Ananias Fiofônio, entre casas de praia, automóveis de luxo, passarinhos raros, e incontáveis pastéis de vento, pipocou a lista mais exótica de gastos da história de Brasília. Todos pagos com dinheiro público. Mas... Acredito que não foi por mal.
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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Benzerá



(Parte integrante do livro a ser lançado 'Visões comuns de um porco esquartejado')

Nessas horas sou,
Nessas horas será,
Nessa hora virá...
Sorrirá!
Benzerá!

O amanhã terá
Um florescerá,
Que não sumirá!
Ficará:
A mais bela manhã!

E será:
Toda de brilhar,
Brilhará!
Desde o nobre
Ao impuro
E o vulgar!

Nessas horas sou,
Nessas horas será,
Nessa hora virá...
Sorrirá!
Benzerá teu pensar!

Tua mente
Tão demente,
Toda ausente...
De julgar
E julgar e julgar.
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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Eterno



Eles arrancaram minha boca;
E eu sorri.
Eles arrancaram meus braços;
Eu acenei.
Eles arrancaram meus ossos do pé;
Caminhei.
No fim trouxeram a máxima lâmina,
Deceparam a cabeça frágil do corpo,
Comemoraram a desventura do eu morto.

E eu voltei.


(Parte integrante do livro a ser lançado 'Visões comuns de um porco esquartejado')
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terça-feira, 24 de novembro de 2009

As aparências tupiniquins



Começarei o texto revelando minha intenção: O Brasil vive de certa aparência. Mas não quero dizer com isso que nosso amado país é a latrina do mundo, pelo contrário, o Brasil é um continente, ainda vai longe! O que me preocupa é a velocidade no caminhar... O tempo de espera... E quantos sobreviverão à dolorosa travessia.

Aparências... Vamos dar forma a essa questão: Futebol, paixão nacional, quanto tempo um garoto bom de bola se mantém num clube brasileiro? Pouco, é melhor que não faça lá grandes jogadas, gols então nem pensar, ou logo uma mala recheada de Euros levará o garoto. E a luz? Algumas cidades sofrem com quedas de luz diariamente, bairros apagados, cortes sem aviso... Mas no apagar das grandes metrópoles, no apagar de todos os bairros, chiques ou pobres, enxergamos rapidamente o problema. E o corte irregular de madeira? O coração da selva é devorado por máquinas, os lotes de terras preservadas são vendidos indiscriminadamente! E os índios? Bom, além de serem massacrados desde as Caravelas, vão agora ficando mais espertos e empreiteiros. E o carro blindado? O tal do “caveirão” carioca? Se você visse na televisão, que a cidade sede dos jogos olímpicos é cercada por núcleos marginais fortemente armados, onde a própria polícia só consegue entrar com uso de blindados militares, esquemas de guerra, e que o número de ocorrências policiais é vasto e alarmante; você ficaria tentado em ir aos jogos de Sarajevo? Os jogos de Gaza? As olimpíadas de Cabul?!
E os programas sociais? Dinheiro imediato pra quem precisa comer; complementar a renda... Concordo! Mas e os grandes núcleos governamentais, os mega núcleos (somos um país continente) para ensinar e profissionalizar gratuitamente todos os cidadãos? E os presídios rurais para plantar a comida dos restaurantes populares, das merendas públicas? Onde está o projeto gigante que um país gigante merece?! Tudo é aparente e imediatista. Lembramos, e esquecemos.

Os escritores precisam pagar para vender os livros iniciais (expostos a enganadores), os atores aspirantes precisam investir em registro e material de trabalho (book fotográfico, DVD com cena gravada...), as profissões mais “nobres” vão de um pólo ao outro: De graça em algumas ONGs em favelas... Caríssimas e fechadas para as classes intermediárias. Há enraizada uma república dos amiguinhos, dos conhecidinhos, do nome forte na carteira, isso é fruto de um joguinho de aparências. Assim como o hospital de duzentas salas com apenas vinte em funcionamento, um posto de saúde que abre às dez da manhã e fechas às três da tarde, um sistema nacional de TV aberta que permite cinco programas religiosos em cinco canais diferentes, simultaneamente! Será que é uma ajudinha não declarada em favor das TVs a cabo? E a cota universitária? Não entendo essa cota, temos paupérrimos e favelados de todas as cores! Façam uma cota única para o pobre! O nosso preconceito maior é o social!

Agora a onda é apartheid moderna, era medieval 2000, queimar bruxas de mini saia, apontar o dedo sujo ao pecador, separar os coloridos... Tanta energia jogada fora, os políticos (preocupadíssimos com a opinião pública) agradecem. Tenho um medo danado dessa nova geração apartheid anti mini saia. Tanto medo que paro por aqui com minhas observações. Preciso manter esta minha aparência olímpica de carioca satisfeito.
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domingo, 22 de novembro de 2009

Necessidade de Rabiscos



(Conto publicado na Antologia de Contos Fantásticos da CBJE 15° Vol.)


Carta anônima encontrada por um sacoleiro andarilho na ponte da amizade, fronteira com o Paraguai:

‘Nunca fui nenhum tipo de herói, também não fiz parte de organização ou movimento algum... As coisas foram acontecendo naturalmente, seguindo uma espécie de fluxo criativo que habitava silenciosamente meu corpo, e muitos outros. Passo a passo, dia a dia, senti uma necessidade doida de escrever, como de beber água, tomar banho, comer, vestir, calçar. É tão orgânico quanto as minhas funcionalidades habituais, escrever é tudo que gosto de fazer, que amo fazer! Mas eu não sou igual aos outros, me recuso a escrever no papel. Já escrevi muito em meus cadernos e fichários, na escola, na faculdade, no trabalho, minha necessidade é outra; Os Rabiscos! Meus incompreendidos e santificados rabiscos! Quem foi o Asno que declarou que os desenhos e dizeres em banheiros públicos não são obras de arte? Se cada letra torta, cada hieróglifo moderno e frase filosófica que de minhas mãos beijaram o concreto e a madeira, levaram um pouco do meu coração!
Cada muro, cada porta, cada pilastra. Sempre tive necessidade de rabiscos, e isso fez de mim um artista jamais reconhecido.

Mesmo que eu quisesse, não poderia nem conseguiria narrar todas as minhas obras de arte, são muitas, em lugares que nem lembro ao certo, mas estão lá, pra quem quiser ver, é só procurar. Num banheiro de rodoviária no interior de São Paulo comecei a divulgação do meu primeiro rabisco de sucesso: “É aqui que todo covarde faz força e todo valente se borra”. Logo os fãs aderiam e a frase virou febre. Depois foi a musical: “Não cague cantando que a merda sai dançando”. Quantos plágios Brasil a fora, artistas reprimidos em busca do gozo ilegal. Logo os banheiros já estavam tomados pelas obras: “Taninha sexo quente, assando a lingüiça da gente!”, “Se eu sou ladrão a culpa é do tio Valmir”, “Quem não tem fé tá ferrado”, “Mulher honesta só minha mãe”. Eram frases aleatórias, desenhos diversos, mas comecei a encontrar nomes com telefones e indicações; “Ligue que te arraso de prazer”, “Ta afim de uma transa agora?” Começou a perder o sentido... Vinganças, chacotas, anúncios, já não era arte. Abandonei os banheiros.

Foi durante uma viagem à Maceió que encontrei minha nova tela de trabalho: Os muros de um prostíbulo barato! Era fascinante, ver o balé ofegante das celulites e perebas calientes na mesma sacada. Minhas Monalisas de cinco e noventa e nove, tão caras quanto à garrafa de vinho que me acompanhava! Musas inspiradoras que mereceram após farta ceia carnal, uma de minhas frases mais celebres: “Não existe mulher feia, você que bebeu pouco”. Os muros eram meus agora. Todos eles.

Hoje sou um setentão realizado, imortalizado e lembrado por todo o Brasil. Em minha última investida, alcei ares de Profeta Gentileza, ao escrever por todas as paredes vazias da Cidade do Rio de Janeiro: “Só Jesus expulsa os Demônios das pessoas” Mas cansei disso. Sinto-me esgotado demais para continuar viajando por aí sem rumo, vou me estabelecer em algum outro País Sul-Americano, onde pretendo saciar minhas necessidades de Rabiscos escrevendo vez ou outra, recadinhos muy amáveis pelos muros do MERCOSUL. Dois fazem enorme sucesso: “Yankees go Home” e “ALCA ALCArajo”.
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sábado, 21 de novembro de 2009

Lindas manhãs de sol



A luz virá na chuva,
Posso sentir!
Depois teremos lindas manhãs de sol.
O escuro será luz,
A treva sumirá,
O coração se acalmará,
Teremos lindas manhãs de sol.
Se o falar de agora é pedra,
Amanhã serão carinhos.
No lugar das abelhas
Estarão passarinhos!
E teremos lindas manhãs de sol!

Entornavam sangue?
Vinho!
Flor do campo?
Sem espinho!
E ninguém com o céu na cabeça
Haverá de ficar sozinho!

A luz virá na chuva...
Posso sentir!
...

Depois teremos lindas manhãs de sol.

(Parte do livro a ser lançado brevemente 'Visões comuns de um porco esquartejado')
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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O INCINERADOR DE DEMÔNIOS GAYS




A Igreja de Pastor Bibinhas ficou muito famosa em sua região... O motivo? O fabuloso recorde de curas homossexuais. Curas?! Exato.

O pastor Bibinhas, (Humberto Guajará Pimenta) ex travesti de carreira internacional, ainda fazia shows travestido de ‘Sunni Butterfly’ quando ouviu um chamado maior, a voz de Deus... Casou-se, vestiu-se como homem, e passou em uma prova para gari. Logo nasceria o pastor, na mesma igreja que expulsou seu suposto demônio mulher.

Passaram-se três anos, e o sucesso das curas homossexuais de Pastor Bibinhas extrapolou os limites de sua cidade, seu estado, e já era vista pelo Brasil inteiro graças à transmissão de um programa em rede nacional. Incrível! Entravam gays e saíam heteros!! Um repórter espertalhão de uma emissora carioca resolveu entrevistar Bibinhas para saber sobre os tais demônios gays, mas a proposta era que o reporter bonitão fosse um pouco mais além.

Trajando elegante terno italiano, o repórter chegou perfumado, óculos escuro, cabelo loiro em corte militar... Ao ver o pastor deu-lhe caloroso abraço, e este retribuiu de imediato. Já com o gravador ligado:

- Pastor Humberto, eu...

- Pastor Bibinhas, por favor.

- É claro, pastor Bibinhas. O motivo de eu estar aqui é a sua trajetória de vida, a forma que o senhor saiu de uma realidade e entrou em outra completamente diferente.

- Fé! Nada mais que fé, meu filho (nesta hora ele deu uma risadinha fora do script, olhando nos olhos azuis do repórter). Mas não espero que todos acreditem... Sou como um beija-flor, beijo algumas flores, mas não tenho bico para todas. Eu fui curado pelo criador, tento ajudar alguns irmãos serem homens novamente, como a natureza os fez.

- Empregar demônios como causa do homossexualismo, não seria ofender os gays?!

- Não vejo assim, não ofendo ninguém (o jornalista aproxima um pouco a cadeira, sempre com um sorriso carismático a oferecer).

- Quantas curas o senhor já fez?

- Minhas pombinhas da salvação (assistentes) contam mais de duzentos mil! Demonios de todo o tipo! Uns eram antigas dançarinas de lambada assassinadas por cubanos bêbados, prostitutas na época da revolução francesa, esposas de vikings, mulheres que sofreram e acabaram transformando-se em demônios gays, com intuito único de afeminar os homens e tirá-los do seu caminho viril.

- Esses demônios também agem nas lésbicas?

- Sim. Mas os que agem nas lésbicas são almas masculinas, devemos apenas inverter os órgãos (outra risadinha fora do script, uma cruzada de pernas bem tombadinha pra esquerda).

- O senhor sente saudade dos tempos de Sunni Butterfly?

- Não. Nem um pouco. Há de se ter paciência no começo, ver que todas as relações homossexuais que lhe proporcionaram prazer não foram vivenciadas por você. Você foi mero instrumento naquele momento. Os demônios é que deram ordens ativas e passivas, automaticamente o subconsciente dominado assimilou e cumpriu. Não existe o homossexualismo, nem experiências homossexuais. Existe sim uma possessão demoníaca, como a que me rendeu durante anos. Por isso não posso sentir falta de uma vida que não existiu.

Muitas perguntas depois, o jornalista se convenceu de que Bibinhas estava mesmo curado... Parou de jogar charme, desligou o gravador, agradeceu, e ao abraçar Bibinhas recebeu inesperada lambidinha no pescoço e um firme apertão nas nádegas.

- Quê isso Pastor?!!

- Gostosão!... Foi o diabo quem te mandou, não foi? Danadinho...
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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Policiais do Rio de Janeiro: Heróis ou vilões?

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Falamos muito da violência dos policiais no Rio de Janeiro, as incursões em favelas, os tiroteios, a truculência, a corrupção... Mas poucos falam do homem por trás da farda. Você acorda às seis da manhã, sai pra rua com um companheiro na viatura, o alvo, e no mar caótico da cidade tenta honrar o salário de fome com atitudes heróicas! E o psicológico?! E a família que espera em casa? As pessoas expostas diariamente num ambiente hostil tendem a ser hostis! Basta lembrar os ex combatentes do Vietnã no retorno traumático a América.

Toda a semana um novo enterro na corporação, mais de um, e todos se entreolhando sem saber qual deles estará deitado no próximo caixão. Não culpo ninguém, nem bandido nem polícia, são aquelas crianças de ontem, esticadas e fazendo bobagens. Faltou puxão de orelha? Não... Faltou carinho, sentimentos de HOMEM, e principalmente carinho governamental. Uns caras querem cheirar pó, os outros querem fumar, injetar, o outro quer voltar pra casa, sustentar a família. E todos querem dinheiro! Bom, se todos querem dinheiro, e ninguém tem, faltou carinho governamental. Não culpo nem polícia nem bandido: A polícia é o retrato dos governos faladores, e os bandidos são os bebês do descaso capitalista, da lei do umbigo (o meu umbigo primeiro).

Pegam-se dois cachorros filhotes: Um é tratado com amor, boa comida, bons tratos... Ao passo que o outro filhote é amarrado num canto escuro, vive preso, recebe pouco alimento e não sabe sequer o que é carinho; há de morder alguém! Mas não culpo ninguém, e se culpo, é a ignorância dos governantes todos! É fácil reclamar dos policiais, porém, eles vivem o dia a dia de um trabalho arriscado até para os fuzileiros Norte Americanos patrulhando o Afeganistão!

Policiais do Rio de Janeiro:Heróis ou vilões?
Vitimas. Como todos nós que não governamos ou decidimos nada.
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Ossos e teimas


(Esta poesia faz parte do livro a ser lançado brevemente 'Visões comuns de um porco esquartejado')

Horas que teimo em retardar os ossos,
Em que não posso a morte do esqueleto,
De lá, sentado, em carne, o que eu escrevo,
Não vale nada; vai secando junto.

Horas que teimo no brigar valente,
E no ausente do lutar vazio;
Horas que teimo em retardar os ossos.
Horas que ouço...
Meu gritar sozinho.

São essas horas loucas meus poemas!
Em que o dilema há de fazer confuso:
A doce flor tapada na colina,
O monastério dum coral de hienas.

São as maldades cruas da cidade,
São as verdades invadindo luas!
São essas loucas horas meus poemas:
São minhas almas...
No bailar das ruas.
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O EXPURGADOR 999



(Texto publicado em três círculos literários: Seleta de Contos de Autores Contemporâneos Edição especial 2008 da CBJE, na revista virtual A broca Literária da Editora Drill Press, e na Antologia Eldorado do Celeiro de Escritores)

"No reflexo sujo do azulejo, com a cabeça naufragada nas piores sordidezes humanas, consegui tocar as mãos de algum ser superior brincalhão. E de minha podridão pessoal e carnal, usufruí o frutífero gozo de pequenos milagres não divinais”.

+ Graneiro Coutinho-1960-1995. +


O relógio já marcava três da manhã e Graneiro Coutinho ainda olhava a foto da vaca. Dois rapazotes ressecados com cara de mortos de fome... Foram saciados por aquela bovina. Um a pegava firme por trás, sobre a cama devedora de muitas prestações, enquanto o outro, que parecia ter cedido vez após farto banquete, deleitava-se com seus pistaches e canais de TV a cabo.
- Ainda posso sentir o ar... A atmosfera marginal... Posso ver os olhos revirados de Elenice sob as entocadas viris e desritmadas do vira latas assassinável. Foi tesão, ela disse, tomando parte de uma sinceridade que só a condenava.- Relatou ao despedaçado seu fascínio pela curiosidade de provar da carne maltrapilha infecta, dos estercos que a santificavam entre umas e outras idas ao supermercado. E o Graneiro sempre perfumado... Sempre vaidoso... Zeloso. Isso era tudo que a foto refletia. Uma prostituta fantasiada de senhora honesta... Um imbecil que acreditava e sorria. Pensar que planejavam compartilhar genes! Vaca.

Após o divórcio traumático, havia ficado impossível para o jovem comerciante conceber a idéia de que nem todo o ser humano é um encubado erótico em potencial; se a própria esposa amada com quem conviveu por oito anos, revelou-se uma total estranha com desejos vulgares! O que fazem quando estão realmente sozinhos? Dentro de seus banheiros, longe das vistas de quem realmente importa? Começaria para ele a difícil tarefa de viver cercado pela verdade constrangedora. Ao redor, masturbadores reprimidos, zoófilos, pedófilos, ‘legumenófilos’, 'Cuzófilos'! Possíveis assassinos físicos e de sentimentos; mentirosos, falsos! Querem sexo! A moda, o cinema, a TV! Até mesmo os desenhos animados... Tudo desculpa pra fazer e ensinar sexo. Sexo! Sexo! Não importa o que se faça... Sexo é sempre o principal; faça sexo melhor que tudo e seja um campeão! Vaca.

Dois anos haviam se passado, entretanto para Graneiro Coutinho nada mudou; se mudou foi pra pior, sem dúvida. Agora ele não queria sair de casa, deixava que seus funcionários cuidassem de sua mercearia da maneira que lhes fosse satisfatória... Não tinha cabeça pra nada mesmo! O corpo aumentou em peso, diminuiu em colorido: A pele se apresentava mais cansada. A áurea apagada não reagia... E assim foi pro sofá; de lá pro banheiro. Todos sofrem seus baques na vida, e é certo que cada um de nós tem seu tempo de recuperação mental, mas, o homem insistia nas máscaras humanas! Tentou então estabelecer contato com Deus pela primeira vez, e reparou que as perguntas eram muitas e o tempo era pouco... As máscaras! As malditas máscaras!
Num telejornal noturno, ele surpreendeu-se com a notícia em destaque: Uma traficante mulher tinha sido presa pela polícia durante uma troca de tiros em favela carioca. 'Amaurinha Perversa'. - Que delícia de mulher! Como é que um pedacinho desse vira bandida? Demais essa bandidinha. Humm. Demais...
Foi a primeira reação sexual do seu corpo em muito tempo! Estava agora de meia preta e cueca branca de algodão, esparramado no sofá territorial a friccionar-se em pequenos espasmos desritmados, na telepatia de busca por cada detalhe daquela gostosinha malvada. Trafiquinha maluca. Vaquinha.

Um acordar leve... É assim que descreverei aquele seu amanhecer. Escovou os dentes, passou um café fresco, e depois ficou a pensar que agora também possuía sua máscara humana: sonhara com a bandidinha loucamente. A mesma que estava morta na capa de seu jornal popular... MORTA?! Morta. A mulher que após muito tempo foi única em despertar-lhe algum desejo, talvez derivado da incessante busca pela podridão do homem, a mesma que fez sua manhã mais leve, acordava defunta ao lado da baguete.
- Vá com Deus meu amor, menos um torto no mundo! Agora falou o velho Graneiro de sempre, um homem de caráter reto, a favor da família e da preservação moral! No fim, pensando calmamente, foi uma coincidência meio macabra mesmo. Suicídio na cela, dizia a matéria. - Foi comida até fazer a passagem, isso sim.

Em outra situação, dias depois, ocorreu algo bem parecido com o episódio da traficante: Coutinho estava pensando novamente em Elenice, com a mesma foto de sempre a torturar-lhe as entranhas, porém dessa vez, encarou a cena com a presença mais voyeur que suas forças puderam juntar. Mergulhou nitidamente em tudo o que viu, e somando com sua recente criatividade imunda, visualizava a santinha de outrora sendo arrebatada pelos dois rapazes como uma antiga profissional em final de turno. - Infiel, cretina, vaca!... Gostosa de mulher maluca, maluca! Humm... Delícia de maluca...
Dessa vez as imagens percorreram sua mente com o mesmo impacto de um filme pornô barato... Era atriz e não sabia. E Graneiro tão sórdido quanto à vaca. Boi; quando descobriu a real capacidade de sua ex, o motivo de sua existência, ele é informado de que ela está morta na sala... MORTA?! Morta. Os rapazotes que freqüentavam seu novo apartamento resolveram levar uns colegas do futebol e do fliperama, e a câmera de algum papai para uma festinha com a meretriz dadeira que não gostou; tomou uma bela curra da galerinha de jovens machos, e uma garrafada com o vinho dado pela ex-sogra três anos antes, que abrira seu crânio por conta de não parar de se debater. Foi o realce entornado como urina de gato na goela dos semimortos eretos.
- Vá com Deus Elenice... Vá e me espere! Esse mundo não vale é nada. Eu devia ter te protegido desse vendaval de livre arbítrio, minha flor!
Seria outra coincidência? Um defunto por masturbação? Não... Não! Seria possível?! Um homem ter o poder de expurgar alguém da existência no mero ato de tocar a si próprio?! Sabedor de que a Terra pode ser palco de todo e qualquer evento fantástico, ele resolveu que não faria mais aquilo; sabe-se lá! -Vá com Deus. Eu não sabia vaca.

No exato momento em que recebeu por debaixo da porta uma carta anônima, ás duas da manhã, todos os fatos recentes começaram a ganhar formas e contornos concretos: 999. Amigo Expurgador; venho por meses acompanhando sua sina particular em desvendar sentimentos e verdades humanas. Alegro-me em ver tal terráqueo exercendo honroso empenho. Dei-te eu, o poder de mandar para outros planetas espectrais a pessoa que te convier. Julguei a ti bem vindo, todos os poderes que concedi para trilhares como meu missionário fiel teu breve caminho tortuoso. Tens o poder de desmascarar a todos, és na tua fonte da vida que carregarás o jugo da morte. São águas perante teu mel. É tu expurgador, o homem que decidirá de dentro pra fora! Vire o 666 ao contrário. Perceba que és tão divino como qualquer outro santo. E teu jorro tão bento como nascente de rio. Siga o caminho. 999.

Agora o homem sabia qual era sua missão.

"Graneiro Coutinho foi acusado em relatos de diversos paranormais, por assassinatos até então inexplicáveis, ou em casos em que os assassinos se disseram possuídos por uma espécie de força demoníaca, e passou a ser investigado por instituições federais e científicas do Mundo inteiro. Contudo, a inexistência de uma lei relacionada a crimes paranormais manteve-o em liberdade. Hoje, a presença e a veracidade do Expurgador 999 atuando entre os anos de 1989 e 1995, e seus poderes, não passam de uma lenda esquecida e bem retorcida. Falam-se em torno de dez mil mortes. Mas tudo que se sabe de concreto, é que ele foi assassinado a garrafadas por uma mulher misteriosa, que entrou em sua casa pela madrugada sem nenhum sinal de arrombamento. Os vizinhos relataram só terem ouvido uma voz no interior da residência; a do Próprio Graneiro: - Obrigado vaca! Obrigado vaca!"
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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Ao mestre com carinho.

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Este é um depoimento emocionante do poeta irrealista Carro Velho, ilustre Doutor em idiomas ocultos e mentecaptos da incompreensão. Espero que as palavras de luz deste homem singular possam iluminar suas mentes, e expandir as percepções. Obrigado amigo poeta.

"Zoograficamente estrondófico este mocó de porra nenhuma, vai halls?"
Carro Velho.
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terça-feira, 17 de novembro de 2009

DIABETES



(Este conto foi publicado na Antologia de Contos Fantásticos da CBJE 17° Volume, outubro de 2008)

E quando conseguiu abrir os olhos, ainda sufocado pelo amor das Santinhas de açúcar, Josivaldo pode testemunhar o céu ficando enrubescido ao notar-lhe. Tal qual um garçom cansado de servir, ele agora comera as guloseimas da bandeja sem culpa. Foi buscar seus coraçõezinhos redondos. Seus sonhos mais fofos. As criaturas mais doces que já conheceu... Agora as possui.

Na época que meu irmão escreveu a carta me chamando pra morar com ele no Rio de Janeiro eu tinha dezoito anos, e as coisas não estavam lá muito fáceis na minha terra, no sertão da Bahia. Tudo era difícil, a comida era pouca, a água escasseava... O José, mais velho dos oito, tinha ido antes justamente pra tentar melhorar de vida; e melhorou. Abriu uma lojinha de doces no Bairro de Cascadura, subúrbio do Rio. Quem fazia os quitutes era a mulher dele, Dona Carminha, e a irmã dela, Marilene. O Zé queria que eu trabalhasse com eles, por ser de confiança, ajudando as duas na fabricação dos doces. Ele ficaria mais desafogado pra tomar conta da loja. Minha mãe Zeferina me deu sua benção chorando, mas eu parti foi sorrindo, radiante de felicidade, pronto para ajudar o Zé a enriquecer mais depressa!

Quando desci do ônibus os três já estavam a minha espera. Meu irmão era a mesma coisa de antes, só estava mais bem cuidado e de roupa elegante. O que me chamou atenção mesmo foram as duas mulheres. Dona Carminha me abraçou calorosamente, como se recebesse um filho, e pela primeira vez em toda a minha vida pude sentir um abraço tão aconchegante e amplo. Ela dava pelo menos três de mim em largura e peso, e a sensação de voltar a ser neném me agradou instantaneamente. Sem malícia. A Marilene era a mesma coisa, só um pouco mais nova. Brancas avermelhadas de cabelo ‘chanelzinho cor de mel’; olhos incrivelmente verdes. A primeira coisa que as pessoas devem pensar é: Porque mulheres de faces tão belas, delicadas e meigas, não tentam um regime?! Não pensei. Algumas coisas são como são. São perfeitas assim.

Nós ficávamos na cozinha de casa fazendo os doces, quando acabávamos eu ia entregar a mercadoria pro Zé, que ficava na loja. As duas não eram de falar muito ou pelo menos não pareciam estar ainda muito à vontade. Eu também quase não falava, e tentava não olhar, mas não conseguia... Eram lindos os olhos verdinhos! Os doces só eram deliciosos daquela forma porque nasciam das mãos macias, quentes e delicadas; tão brancas que se somavam ao Chantilly. O cheiro doce. O cheiro do suor delas era doce! O rádio tocava músicas populares alegres, Marilene dançava e trabalhava, vestindo sempre sua valente bermuda de lycra e um top curtinho, assim como sua irmã, mostrando romanticamente os belos corpos fartos. Cada dobrinha tinha vida própria. Reluzia! Não havia doçura maior. Lembrei-me dos abraços na rodoviária... Senti-me tão seguro. Tão protegido para encarar o Mundo novo... Elas bem que podiam me abraçar de vez em quando. Foi maravilhoso ouvir o bater descompassado e pesado daqueles coraçõezinhos pequenos acelerados... Meu irmão é um homem de sorte.

Alguns dias depois, a Marilene me pegou num canto pra conversar, estava com ares de preocupação, pensei logo ter feito besteira em alguma receita quando ela me contou o que acontecia: - O José não anda nada bem... Ele fez uns exames e o médico atestou que ele é diabético. O pior é que o Zé não gosta nem de tomar injeção nem de nada. Disse que vai continuar do jeito que está e entregar nas mãos de Deus. Vê se pode?! - Realmente não podia... Mas fazer o quê? Mãe Zeferina falava que ele sempre foi assim. ‘O homem do ponto final’; e assim foi. Infecção generalizada; fruto de um corte ocasionado por uma lata de salsicha, que nunca veio a cicatrizar.

Estávamos os três velando o corpo roxo e inchado do Zé na Sala de casa. Num caixão digno de presidente! Carminha gastou todas as economias no caixão e nos comes e bebes, queria dar ao homem que a tratou como rainha a melhor despedida possível. Marilene só chorava, recostada ao ombro da irmã. Já estávamos na parte em que todos foram, e só ficaríamos nós ao lado do teimoso durante a madrugada. Fiquei observando meu irmão... Tudo isso por conta do medo de hospital! - Valeu a pena Zé?! Hein?! Agora tu ta aí pra virar adubo, seu cabeça dura! - Perdi o controle de um jeito que mais um pouco chamava o defunto pra briga, foi quando me senti neném. As duas me abraçaram rapidamente, uma de cada lado, aparando minhas lágrimas antes mesmo que caíssem, e eu senti o tocar dos dedos macios em meus lábios, ao passo que Carminha introduzia uma queijadinha em minha boca. Quando terminei de engolir, senti o carinho suave de Marilene em meu rosto e o gosto do brigadeiro que ela me ofereceu. No meio daquele abraço duplo, enfeitiçado pela doçura das irmãs, me abaixei e comecei a lamber os tornozelos de Carminha, depois o de Marilene, e tive a certeza de que eram mais doces que os doces que provei. Não levantei o olhar, apenas estendi os braços o máximo que pude, para aconchegar o maior abraço que pudesse, e tentar caber as duas contra o meu peito magro. Ambas, como num filme pornô de pouquíssimo diálogo, mostraram os maiores planetas rosados que já vi, e amamentaram a criança que eu era ali mesmo; na frente do Zé.

Deitado na enorme cama de aço feito sob encomenda eu contemplo as anjinhas de açúcar... Dois travesseiros me aconchegando, aquecendo; uma coxa me cobrindo de cada lado, e sobre meu ‘peito-mesa’ uma bandeja de doces... Comemos os três, mas peco eu pelo excesso. Pois elas são de açúcar; De açúcar! As minhas santinhas foram erguidas de açúcar e mel, nós é que somos mortais de carne e osso! Apodrecemos pela doçura... Entendo perfeitamente a doença do Zé.
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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Macacada atômica



Qual a diferença entre os humanos e os outros animais?
No zoológico um macaco ofereceu-me banana,
Brincou da grade, sorriu pra mim,
Umedeceu suas fezes e jogou em minha camisa
(Sei que eles fazem de boa intenção, e também não faria mal nenhum uma bomba fecal, exceto pelo odor, em Hiroshima e Nagasaki)
E os humanos?!
Conheço moças distintas que fazem menos que esse macaquinho,
E ganham presentes lindíssimos.
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domingo, 15 de novembro de 2009

Desértico e metódico fim


Diabos! Estou afundando na areia
Em desértico cantar de sereia
Mareia
Deserto de mim!

Deuses! Finquei por metódico esquema
Amor em dez dúzias de poemas
Fonemas e telefonemas
Nem sei se vou publicar!

Humano! Invada o solo ateu, profano.
Deixe a década modificar um ano.
Deixe esse ano modificar meu fim!

Diabos! Estou afundando na areia
Em desértico cantar de sereia...
Quem me dera um oásis em mim.
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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

VOTO ‘POMBAGIRA CAPIM’



E foi lá naquela cidadezinha, que um fato inédito surpreendeu os vinte mil habitantes na última eleição.

Logo pela manhã os entrevistadores estavam a postos; num lugar daquelas dimensões não seria nada difícil conseguir um resultado seguro de antemão. E antes do meio-dia já chegava o incrível resultado das pesquisas: A eleição estava rigorosamente empatada! Porém, havia outro fator ainda mais intrigante: Dentre todos os entrevistados, apenas um respondeu estar indeciso.
Após tomarem conhecimento da novidade, se encontravam lado a lado na porta de uma humilde residência os dois candidatos, situação e oposição, dispostos a venderem a alma caso fosse para conseguirem o voto da sorte!
Quando a porta se abriu...

Oposição: Meu amigo! Meu companheiro de jornada! Meu conterrâneo! Como vai?!
Situação: Meu caríssimo eleitor! Sinto-me iluminado perante ilustríssima figura!
O homem quase cai pra trás.
Indeciso: Vocês!!! O que estão fazendo aqui?!
Oposição: Viemos conhecer o eleitor mais ilustre e importante dessas eleições!
Indeciso: EU?!
Situação: É claro! Neste caso, apesar de fato raro, tenho de concordar com este calhorda... O senhor já votou?!
Indeciso: Não... Eu tava indo agora, mas...
O candidato da oposição o interrompe eufórico.
Oposição: UFAA! Pu** que o p**iu!
Situação: Veja bem! Isso é linguajar de um candidato?!
Oposição: Não tenho culpa de ser espontâneo e deixar falar meus sentimentos. Esse é um traço forte que meu eleitor valoriza muito!
Situação: Ah, é?! Se eu soubesse que seu eleitorado gosta de espontaneidade, teria mandado o amigo candidato tomar no c* em pleno palanque!
Oposição: É bem de acordo com sua reputação imunda de plagiador barato e ladrão.
Situação: Olhe bem seu monte de estrume...
O indeciso interrompe ainda confuso.
Indeciso: Não entendo mais nada. Será possível, vieram brigar aqui também?! É pegadinha isso?
Situação: De forma alguma! Longe de mim, trazer ao senhor qualquer tipo de aborrecimento.
Oposição: Vamos diretamente ao ponto, meu amigo: O senhor é quem vai decidir essa eleição!
Indeciso: O quê isso doutor?! Eu sou caminhoneiro! Como é que vou decidir alguma coisa política?!
Situação: A eleição está empatada, e as pesquisas dizem que seu voto é o único indeciso em toda a cidade!
Oposição: Exato! O amigo eleitor pode me pedir o que quiser, viu?
Situação: Pra mim também! Aliás, só em mim o senhor pode confiar!
Oposição: Ora, não me faça rir! Não era o amigo que fumava certo capim proibido na adolescência?
Situação: Como ficou sabendo disso?! Foi aquela ‘Pombagira’ cigana que o senhor incorporou na igreja ontem? Só pode.
Oposição: ERA UM ENCOSTO!
Situação: Não, o senhor é médium, um ‘crente’ médium. E tem uma bela ‘Pombagira’ de frente que o guarda!
Oposição: Ora seu... Seu herege caluniador! Macumbeiro!
Como que não ouvindo a lavação de roupa suja, o indeciso que aparentava até então ser um homem bem simples e ludibriável deu um grito mais que autoritário.
Indeciso: FINGE DE MORTO!
Situação e Oposição: O quê?...
Indeciso: Isso mesmo. Não querem meu voto? Terão de fazer o que eu mandar!
Situação: Mas... Mas eu posso lhe dar dinheiro! Cargo público!
Oposição: Uma casa, um negócio; posso dar o meu carro se o senhor quiser, agora mesmo...
Indeciso: FINGE DE MORTO! ANDA LOGO!

No desenrolar da cena ridícula, os candidatos deitaram no chão, correram, brincaram de ciranda cirandinha; pularam carniça, subiram na goiabeira, e até roubaram ovos do ninho de uma coruja!
O antes indeciso, e agora bem decidido, foi votar pensando em tudo que se passara pouco antes. Decidiu votar em branco.

Decidido: Ta é doido... Se pra convencer um humilde caminhoneiro como eu eles fizeram aquela palhaçada toda, imagine pra conseguir dinheiro de investidor! Coitada da cidade... Ta é doido... Minha alma não!
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domingo, 8 de novembro de 2009

Catador de percevejo



(Poema canção)

Vai saber...
As coisas me parecem meio irreais.
Ontem mesmo
Eu andava com uns animais,
Num parque onde as visitas só me olhavam nu!

Vou sair...
Não vê que as minhas falas são as anormais?
Não vê que são vestígios de uns ideais?
Uns bem mortais.
Uns imorais.
Angelicais no fim.

Ontem só que eu não sofri
A problemática do mundo.
Hoje só que eu não morri
De algum ataque meu profundo.
No outro dia foi no fundo
De um baú que eu me encontrei
E vi que estava imundo...

Calendários rotativos não me rodam mais,
Nem floresta industrial, nem vasos de bonsai,
Traz a calma natural que eu quero ter da vida;
Então valer minha paz.

Escada que me cai
Maravilhas que não vejo
Sem educação
Catador de percevejo
Maremoto interno
Falador de tudo
Que há de falar em mim.

Escravidão do corpo
Desejoso de desejo
Ou de um turbilhão
Que dê conta do que vejo
Maremoto interno
Falador de tudo
Que há de falar em mim.
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sábado, 7 de novembro de 2009

Amadas Amebas!


Trechos do livro de bolso 'A fuga das amebas selvagens', disponível para outras editoras através da Editora Livro Novo.

AMEBA 167

Ao ver o burro sentado e o senhor puxando a carroça,
Um transeunte não se conteve:
- Não seria mais fácil deixar o burro puxar a carroça?!
- Até seria, meu filho... Mas eu faço com muito gosto! O burro é meu amigo!


AMEBA 18

Gafanhoto, cobra, cachorro, barata, formiga...
- Qual a coisa mais estranha que você já comeu?
...
- Uma flamenguista com a calcinha do Vasco!


AMEBA 116

-Hoje eu rezei na missa!
Ganhei estrelinha de bom menino!
Ajudei um ceguinho atravessar a rua!
Fiz um poema pra titia Miranda!
- ...
- Posso jogar Vídeo Game?...
- Não. Ainda está de castigo.
- Então amanhã não tem estrelinha!
Só rezo pro ‘gabiroto Tatu’!
Capaz de eu empurrar o cego na rodovia!
E mandar titia Miranda tomar no cú!!!


AMEBA 51


E a coitada ficou conhecida como Maria ‘Drops de Deus’...
A família toda morreu de bala perdida.
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TROPA DE ELITE NATALINA



(Este conto foi publicado na Antologia Contos Selecionados de Novos Autores Brasileiros Edição Especial 2009 da CBJE, e também faz parte do livro A fuga das amebas selvagens)


E na véspera do natal passado, uma questão de difícil acesso sem precedentes quase acabou de vez com o espírito natalino.

No morro do Bigode elétrico a malandragem não dava mole, subiu sem se identificar ficava na subida mesmo, ou então voltava bem avariado. Foi assim que o ‘Suspiro’, (olheiro e candidato a matador oficial) encontrou um velhote fantasiado se equilibrando suspeito em cima do telhado de um barraco.
- ÔH CUMPADI!!! (apontou-lhe o fuzil maior que seu tronco) DESCE DAÍ ‘MERMÃO’! A CASA CAIU, MANÉ!
O senhor robusto que aparentava muita idade, desceu lentamente, com um sorriso bondoso e pedindo calma ao rapaz, que mesmo assim o xingou de muitos absurdos, e depois destilou a primeira das ‘iras urbanas do novo Estado’, pra cima do idoso de face serena, rosado, que usava amáveis gorro e luvas. Um golpe na boca com a coronha do fuzil, e escorriam pela longa barba branca as primeiras gotas de sangue. Ainda assim o idoso não tombou nem pareceu tontear, olhou com a mesma face serena para o rapaz, e prosseguiu com o que havia planejado explicar antes da agressão gratuita: - Não precisa isso meu filho, eu conheço as pessoas dessa casa, só gostaria de fazer-lhes uma surpresa. Suspiro olhava tão vidrado e ofegante para o calmo vovozinho (um gladiador encarando um leão), que podíamos jurar que ele nada ouvia... Pelos seus motivos torpes, escutava lamúrias de um x-9, ou súplicas, de quem sabe bem o que acontece com esse tipo de Zé arruela que gosta de roubar em comunidade. – Eu só vim entregar dois presentes, para o Ricardo e o Paulinho, eles são crianças ótimas, estudiosos e educados! Você acredita que eles não pediram brinquedos?! Pediram um emprego pro Pai. Eu, é claro, irei ajudar com o emprego, mas mesmo assim trouxe dois bonequinhos que eu sei que eles gostam.
Quando o velhinho abriu a casaca, ingênuo, e foi mostrar ao possuído vigilante do império os brinquedinhos feitos com tanto esmero, este só viu uma arma rival e não pestanejou em atirar no seu pé. Páááh! – QUER ME PEGAR VELHO! TÚ É DO OUTRO MORRO?!! ELES ACHARAM QUE UM OTÁRIO VESTIDO DE PAPAI NOEL IA ME ENGANAR?! - O pé espatifou-se, e já não saberíamos dizer o que era sangue ou parte de sua roupa vermelha. Desta vez o senhor caiu no chão e gritou com o rapaz.
- Ai meu pé! Porque fez isso?! Será que não me reconhece Elias, sou eu, NOEL! Tu me escreveste tantas vezes, lembra do boneco do Rambo?! A piscina de mil litros?!
- VAI PRO INFERNO VELHO! VELHO MALUCO DA PORRA! COMO QUE TU SABE MEU NOME ‘RAPÁ’?! FICA AI QUE EU VOU BUSCAR O NERECO, O PATRÃO É QUE VAI DECIDIR O QUE AGENTE FAZ CONTIGO. ABRE A MÃO. Ele abriu. Pááááh!
Um tiro na palma da mão direita, que bem dizer se desintegrou.
Suspiro correu com os mesmos olhos vidrados esgueirando o mal, e foi transtornado avisar o ‘patrão’. Assim que ele se afastou, dois meninos saíram de dentro do barraco precário onde a pouco o velhinho desmaiado se equilibrava. Acordaram-no com calorosos abraços, beijaram sua barba branca sem se importar com o sangue nos lábios, e desperto Noel viu a dor se esvair num piscar de olhos; e todo o amor e a magnitude de sua missão ganharam suas justificativas. Noel puxou com a mão esquerda dois bonequinhos guardados na casaca, e entregou aos garotos encantados que não paravam de se desculpar. E abraçavam-no como sendo a última esperança. -Vejam meus amores, (entrega um envelope ensopado de sangue a Ricardo, o mais velho) Esse é o endereço onde seu pai conseguirá emprego. Agora eu quero que vocês entrem e rezem... Os bonequinhos vão rezar também, viu? Papai Noel tem que ir antes que aquele rapaz malvado volte. - Ricardo e Paulinho entraram, e tão fascinados estavam com os brinquedos novos, e pela visita que receberam, que nem perguntaram como o bom velhinho faria para voltar ao Pólo Norte daquele jeito... Um pé e uma das mãos feridas! Ajoelharam-se no colchonete e rezaram ao lado do pai que acostumado aos tiros dormia feito pedra. Eram realmente bons meninos. Melhor não terem visto o desencanto do veículo blindado puxado por Renas de armadura e capacete, e os anões ajudantes fardados e armados que rapidamente recolheram o corpo ferido, e voaram pelas frestas espaciais rumo à Casa dos Brinquedos. Uma Tropa de elite Natalina!

O fiel assistente de Papai Noel não se conformava: – Eu falei chefe! Eu avisei! O SENHOR É TEIMOSO!! No Rio de Janeiro só dá pra entregar presente pessoalmente na Barra ou na Zona Sul... Mesmo assim no asfalto, e com risco de roubo e espancamento!
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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A CÉLULA DA FORMIGA SEXUAL


(Este conto foi publicado na oficina de textos da Revista Cult em janeiro de 2009, e faz parte do livro A fuga das amebas selvagens.)

Minhas células resolveram brincar comigo dia desses. Os genes, o cérebro, todos juntos, brincavam de ativar e desativar, ligar e desligar. Era então do espelho, a missão de narrar as transformações em cascata ao entendimento. E vi refletido na própria imagem, variações de milhares de espécies animalescas, informações esquecidas no meu mapa da composição. Neurônios informativos abandonados pela evolução que, aos poucos trocou nossas funções fantásticas por eletrodomésticos caros. Homem jumento, Lobisomem, jacaré, coruja... Até o momento em que me senti na maior queda livre de toda a minha vida; no fragmento imperceptível de um antigo copo de vidro quebrado encontrei-me formiga. Parei assim. Acreditei estar sendo castigado por algum Deus Hindú, quando a visão acolhedora de uma fêmea de minha nova espécie fez-me crer, que aquilo acontecera por um motivo muito maior; fui trazido à nova veste corpórea pela vontade de alguém.

A louca agarrou-me sem mais. Sem nenhuma imposição moral ou social, sem as horrendas travas de concepção humana reprimida, apenas microscópicas criaturas ardentes na imensidão de qualquer coisa. Encontrando em cada partícula um do outro, todo o calor dos entrelaces mais selvagens. Abraçando, beijando, mordiscando, rolando ao chão... Até que ouvi a surpreendente e deliciosa voz humana da Formiga Rainha: Nasci para dar-te prazer meu amor, sou tua e de mais ninguém! Toma-me por deleite sempre que desejares. Sou tua eterna possuída, amo-te por qualquer corpo.

Ao meu lado, guardo numa caixinha com areia rodeada de regalias, a amada recíproca de fato. Alguns insetos mortos e grãos para nossos jantares românticos. E todo dia nos encontramos formigas, amantes; por almas loucamente apaixonadas.
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Meus anjos não atendem



Há um cemitério de sorrisos...
São meus algozes, são meus santos,
Fotos que me queimam, dizem tanto...
E os anjos queridos não me atendem mais.

Passeio entre as árvores desgostosas do que restou,
Busco nas lápides, apagadas, as memórias de cada movimento
Cada momento
Novo, descoberto, intenso,
Desembrulhado num inesquecível sorriso.

Como se riam os olhos de me ver!
Amavam-me, só por me ver chegar!
Sem mais! Sem ter o que dizer!
Eram meus... Amando por amar.

Idiota! Poço de pequeno ego resumido!
Otelo enganado, abutre fingido!
Onde estão os sorrisos agora?!
Enterrados num cemitério só teu,
E bem vivos pela porta afora!

Sorrisos nus de um campo mesquinho,
De um sentimento qualquer, antídoto passarinho,
Voando, a levar-se por experientes carinhos,
Esqueceu-se feliz da nossa ninhada.
Nossa ninhada!
Estes campos pobres nunca te darão flores inteiras!
Nem estas flores te devolverão meu sangue por clorofila!
É teu o meu sorriso eterno e guardado, flor amada;
É tua a minha filosofia.

Não quis comprar sorrisos diferentes...
As lápides sabem...
Só quero amar o seu sorrir de cada dia.
Renego dentes que não sejam teus.
São todas bocas;
Mas estão vazias.

Em Freud a alquimia de um desenganado, regenerado, ex-sovina de si,
Em títulos que não lhe deram nada,
Resumos em que não me vi.
Em livros que não geram sorrisos, amados, queridos,
Que até hoje preciso
Nem que fosse a sorrir sobre minha lápide.
Nem que fosse a cuspir...
Sobre os meus sorrisos.

Meus algozes, meus sonhos, meus santos,
Fotos que queimam, dizem tanto...
Anjos queridos, que não me atendem mais.
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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

SALVEM A AVESTRUZ ERÓTICA!



Que susto levou o porteiro Adailton, dedicado funcionário do prédio Luxuor Parque, no bairro dos Jardins na cidade de São Paulo, minutos antes do Réveillon 2008.

- O que o senhor ta fazendo com esse bicho aí no elevador?!

- Nada; o que lhe parece? Estou apenas levando-o para meu apartamento.

- E pode? Um troço desse tamanho no elevador Doutor Amílcar?!

- Pelo condomínio que pago poderia ser um casal de girafas, estafermo!

- Sim senhor...

- E óh, boquinha de siri, viu Adailton?

- Pode deixar Doutor Amílcar... Pode deixar...

- Você não viu nenhuma avestruz aqui hein! Fica na sua.

- ‘Vistruz’ nenhuma Doutor. Positivo e operante. Feliz ano novo...

O empresário falido fechou a porta do elevador, enquanto o atônito porteiro ainda tentava entender os motivos que o fizeram levar aquele bicho de zoológico para dentro do próprio apartamento. - Deve ser pra comer o pobre do animal! E eu achando que só faziam essa maldade no interior... Com galinha e cabra... Será?! Doutor Amílcar é Vistrófilo?! Existe isso?! Eu devo tá ficando é maluco. – Na troca de turno o porteiro não se conteve e comentou o acontecido com o colega:

- O Valdecir, se eu te contar um segredo tu guarda?

- É claro! Pode mandar.

- O Doutor Amílcar do 502, entrou ontem na hora da virada com um bicho enorme no elevador.

- Uma bicha é?!

- Um bicho rapaz! Um Vistruz!

- Eita! Esse bicho é grande mesmo. Só vi uma vez no zoológico.

- Pois é! Isso mesmo é que ta me preocupando... O que um homem desses pode querer com um animal de zoológico dentro de casa?

- O homem não ta falido?

- A Dona Laura diz que ta.

- Então! Ele vai é comer o bicho e os ovos que ele botar.

- Vai não... Eu acho que é outra coisa... Doutor Amílcar tá sem dinheiro, solitário... Acho que num ta mais certo da cuca não. Endoideceu.

- Será?!

- To achando... Valdecir, não comenta isso com ninguém!

- Pode deixar. Não quero confusão pro meu lado.

Valdecir assumiu seu expediente na portaria e não contou o caso a quase ninguém... Apenas para a sutil Dona Laura, ex-socialite esquecida e infeliz que adora ver o mesmo fracasso, por frestas variadas, ocorrendo a todos. Após ouvir silenciosa e estupefata a história do porteiro Valdecir, a mulher não teve dúvidas:- Esse crápula mantém relações com o animal! Que tipo de gente meu Deus! Que gentalha abominável! Estamos todos perdidos. -

Quando voltou ao trabalho, Adailton involuntariamente ainda pensava na avestruz seqüestrada, de capuz preto, respirando ofegante, assustada... Até o momento em que Dona Laura cortou seus pensamentos com a surpreendente realidade: Todos os moradores já sabiam do episódio macabro envolvendo Amílcar e o pobre animal, e mais, haviam comunicado ao IBAMA e ao Greenpeace no intuito de dar fim ao crime ecológico e bizarro que ocorria no quinto andar.

– Pelo amor de Deus Dona Laura, o Doutor Amílcar vai me matar!! Agente nem sabe se é isso mesmo!!

- É claro que é isso! Nunca reparou no olhar sedento daquele homem horrível?! Estão mantendo relações sexuais, sem dúvida! E posso apostar que a coitadinha reprimida não aprova em nada esta indecência forçada!

Sem que pudessem prosseguir, a polícia federal repentinamente se identificou na portaria, e entraram firme rumo ao apartamento 502. Dona Laura conseguiu avisar todos os moradores, em tempo de ver Amílcar descer algemado; a avestruz encapuzada levada pelos policiais; e puderam ainda tacar alguns ovos de galinha no rosto do empresário, aos gritos solenes de estuprador de passarinho, tarado, demônio, entre outros que a farta inspiração ordenava de momento.

Nem Amílcar, nem os policiais, entenderam a manifestação dos vizinhos. Afinal, ele foi preso por ter roubado a ave confiscada da empresa falida onde investira todo seu dinheiro. Na tal 'lucrativa' empresa de carne e ovos de avestruz... Arrebentada no meio como tantas outras pela crise na bolsa de valores. Achou que pudesse então, ganhar algum dinheiro vendendo o animal valioso no mercado negro... Estuprador?!

Mediante tantas denúncias, o homem foi preso e somou outras acusações, a avestruz acabou sendo examinada minuciosamente pela perícia, e depois de muitas matérias sensacionalistas, foi comprovada a pureza casta do animal. Mas agora é tarde... Desempregado e sozinho, todos só lembram-se do empresário Amílcar como o tarado da avestruz.

Ninguém no prédio Luxuor se desculpou pelas falsas acusações sexuais. Os porteiros foram culpados e demitidos.

(Este conto faz parte do livro 'A fuga das amebas selvagens', de Allan Pitz.)
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A literária matemática




Como queiram...
Entrelaçado, aos pés do egocentrismo, virei tenor altivo da gramática.
E meus alfarrábios poéticos, versos fecais de simplismo ignóbil,
Ouro vulgar em qualquer cofre de bandido
Transformou-se pomposo em literária matemática.

As artérias desinformavam os neurônios,
Execravam funcionalidades;
E por mais que a burrice costumeira tentasse
Meus sentimentos básicos se perderam no dicionário,
Mostrando o valor enriquecido de meras banalidades.

Mas eram belas! E ricas!
(Estariam ricos os que me leram!)
E eu, pobre coitado, rendido pela falta da boa burrice
Malfadado a enredar com brilhos qualquer esquisitice
Esqueci quem era;
O que escrevia, e o que falava.

De dentro da caixa craniada eu berrava: Deixa-me rabiscar de cá!
Livra-me da grade confusa, arranca e liberta,
Deixe a bobagem correr sua meta, compartilhe!
Burro! Vulgar! Simples, ou sem clareza de regras métricas.

Mas meus alfarrábios poéticos, versos fecais de simplismo ignóbil,
Ouro vulgar em qualquer cofre de bandido
Transformou-se pomposo em literária matemática...
Afastando-me, aos poucos, do sentido nobre da gramática;
Substituída por cansativos cálculos sentimentais.
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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

CERTAS COISAS DO VIVER


Viver é presente doido da vida,
É passaporte carimbado de ida,
É coisa divina que o céu nos dá!

Viver é filmar todo dia,
Contracenar com dor, com agonia,
Beijos e cantos de vasta alegria!
Odios; amores e desamores.

Viver é ser folha sem rumo,
Ou permanecer pequeno no galho;
Ser menos que gota de orvalho;
E bem mais que um simples temor.

Viver é saber de tudo,
Mesmo sabendo de nada;
É receber a informação correta
E observar atento à errada.
É ser platéia! Artista!
Calmo, impulsivo, altista...
Ou nada mais que detestável barata.

Viver é descer pelo ralo
E poder brotar em nascente de rio;
É fogueira que se rende ao frio!
É frio que não resiste à fogueira.

Viver é querer acertar fazendo besteira,
É desacostumar com a coisa costumeira,
É amar; sentindo que também odeia.

Viver é a dúvida;
A voz que se omite
E a voz que se canta!
A batida forte que dança!
O duelo que não se cansa...
Mas ás vezes... Também cansa.

Viver é o duplo sentido!
O longo caminho a ser percorrido;
E a eterna luta por sobreviver.
Isso é viver.
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CHÁ DE ARPOADOR


(Poema canção)

De repente cantando me vem
Uma história que eu queira contar
Na brisa que sopra no além
Do meu sonhar.

Placas com dizeres
E quereres
Não podem comprar
Panela velha, acento agudo, e computador.

Chás de repelente
Condizente com cada picar
De inseto agudo ou disco voador.

Gente, trepadeira,
Bagageiro que caiba levar
Todo o Arpoador.
Louco no poema
Rima em qualquer tema
Deixa fluir
Louca canção...
De repente cantando me vem
Algo bom que não possa acabar...
De repente o sonho faça além
Do que sonhar...
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Salomé na bandeja


(Poema canção)

Entregue sua cabeça na velha bandeja,
Revele vis palavras para sobremesa
E diga à rainha que ela é uma hipócrita.

Avisa ao principado que eu não beijo pé
Concordo com Batista sobre Salomé
E diga ao rei do mundo que ele é um hipócrita.

Quem se acha autoridade de bancar teu rumo
Não deve nem saber o que fazer com o dele.
Quem se acha no direito de fazer teu nome
Deve estar com o próprio nome de fazer doer.

Quem atira na cara é o que acerta na bunda
Quem segura a gaivota é o que vira papel
Quem se afoga no ego se enche de alcunha
Vai jogando macumba e pó de mau me quer.

O feitiço do rei é o olho comprido
Se achando bonito no seu ‘enfeiar’

O castelo é pequeno e o teto é de vidro,
Cuidado com a plebe,
Ela vai te pegar.

Entregue sua cabeça na velha bandeja,
Revele vis palavras para sobremesa
E diga à rainha que ela é uma hipócrita.

Avisa ao principado que eu não beijo pé
Concordo com Batista sobre Salomé
E diga ao rei de tudo que ele é um hipócrita.
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Bandeira inglória

(Escolhi essa poesia para estrear no blog, espero que gostem dos meus textos e fiquem por aqui. Será uma honra compartilhar)

Na bandeira que pintei não havia glória...
Tinha lá um punhado de rebeldia
Caldeirão de bruxa
Barco sem remo
Um fuzil trepado de ódio,
Tava lá... Na bandeira que eu pintei...
Caricaturas de transeuntes mortos
Fechaduras que se fecham a si próprio
Versos que não suprem a metamorfose;
O turbilhão e a metamorfose do meu pensar.

Nas cores dela eu não refleti o vermelho berro que perturba o peito
Nem o azul das lágrimas que causei sorrindo
Nem as portas abertas do inferno cativo
Nem mesmo a colheita de absurdos que plantei!
Nada pintado em sincero...
Nada pintado em eterno;
Além da morte,
Traiçoeira antipatriótica,
Insistente em queimar minha bandeira
E arrancar-me daqui feito capim em boca de boi.

Na minha bandeira só existe traços do que fui
Do que vejo
Do que ouço...
De onde errei
Das mediocridades rendidas
Das patifarias absorvidas
Das canecas bem servidas
Das deusas, e das varridas,
De versos que julgo poesia!
Das maravilhas prometidas...
E de tudo que hei de viver.

É a minha bandeira o que sou;
Inglória ou não,
É por aqui que vou;
Levantando a bandeira da vida enquanto puder.
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Este blog surgiu após inúmeras recomendações, broncas, cascudos e beliscões de conhecidos. Aqui está, enfim, um espaço próprio para o escritor Allan Pitz publicar suas "Patavinices", seus textos, seus livros, e tudo o mais que o tempo for lhe guiando e desenvolvendo.

Obrigado pelo incentivo de todos.